SÃO PAULO - Vinte e cinco anos depois do célebre discurso do presidente John Kennedy, Barack Obama proferiu ontem em Berlim o discurso dos sonhos dos europeus. Diante de cem mil pessoas, ele prometeu derrubar muros e construir pontes pelo mundo. Indicou uma guinada internacionalista na política externa americana. Falou em acabar com a guerra no Iraque. Prometeu combater o aquecimento global. Tudo com ajuda dos europeus, os melhores parceiros dos EUA. O discurso pode não lhe render votos nos EUA, mas fazia muito tempo que um americano não era ovacionado assim na velha Europa .

A mídia mundial comparou a visita à do presidente Kennedy, em 1963, na qual ele disse, em alemão, eu sou um berlinense . Obama não falou nada em alemão. Iniciou o discurso dizendo ser um cidadão americano orgulhoso e cidadão do mundo .

Obama conclamou a Europa a ficar ao lado dos americanos nos esforços para levar estabilidade ao Afeganistão e no enfrentamento a outros desafios, entre os quais as mudanças climáticas e a proliferação da tecnologia nuclear. Ele afirmou que os EUA não contam com nenhum parceiro melhor do que a Europa e desaconselhou os aliados a se voltarem para si mesmos.

Ninguém gosta da guerra. Eu reconheço as enormes dificuldades existentes no Afeganistão , disse, no único discurso oficial em sua viagem de uma semana pela Europa e o Oriente Médio. No entanto, meu país e os países de vocês têm o interesse de ver a primeira missão da Otan fora das fronteiras européias ser bem-sucedida. Para a população do Afeganistão e para nossos interesses comuns na área de segurança, essa missão precisa ser cumprida. Os EUA não podem realizar isso sozinhos.

Ele discorreu sobre os laços históricos entre EUA e Alemanha, referindo-se à ponte aérea criada para abastecer Berlim e ao muro. A queda do Muro de Berlim renovou nossas esperanças. Mas essa mesma aproximação gerou novos perigos , disse. Nenhuma nação, independente do quão grande ou poderosa seja, conseguirá derrotar tais ameaças sozinhas.

Segundo Obama, a Europa e os EUA precisam ficar lado a lado para enviar uma mensagem clara ao Irã, convencendo-o a abandonar suas ambições nucleares. O candidato ainda conclamou os dois parceiros a superarem suas diferenças sobre a guerra no Iraque e ajudar os iraquianos a reconstruir o país.

Sim, houve divergências entre os EUA e a Europa. Sem dúvida, haverá divergências no futuro , disse. O maior perigo de todos é permitir que novos muros nos separem uns dos outros.

Em seguida ele alertou para o risco dos novos muros, entre raças e tribos; nativos e imigrantes; cristãos e muçulmanos e judeus , que não podem continuar de pé . E disse que é hora de construir pontes pelo globo .

Ele vem repetindo desde que se lançou à corrida presidencial que pretende resgatar a imagem dos EUA no mundo. O discurso de ontem sugere que ele pode conseguir. O público, em sua maioria jovens, o aplaudiu intensamente. Havia pessoas com botons e camisetas com o slogan Yes We Can (sim, podemos). O discurso foi ao lado da Coluna da Vitória, um monumento do parque Tiergarten, no centro da cidade.

A escala na Alemanha não se restringiu ao discurso. De manhã, Obama se reuniu com a premiê Angela Merkel, para discutir o programa nuclear no Irã, a situação no Afeganistão e a situação da Otan.

(Valor Econômico)

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