Eles fazem o samba do Wiimote doido São Paulo, 23 (AE) - Em vez de jogar tênis, decapitar meliantes vagabundos ou ajudar o Mario a salvar a princesa Peach, eles tocam cavaquinho, guitarra e até piano. Experimentais, os cinco integrantes da banda carioca Lens Kraftone, de música eletrônica, descobriram que o Wii (ou melhor, o controle sensível ao movimento do famoso console da Nintendo) não é só uma plataforma para jogar games, mas também para fazer música.

Com controles do console, os Wiimotes, nas mãos, eles tocam (e bem) de house a samba sem precisar encostar em um instrumento sequer. Um movimento de um lado para o outro da vocalista Marion Lemonnier, de 27 anos, por exemplo, faz surgir sons de piano. Mexendo o controle para cima e para baixo, o guitarrista Pedro Guedes, de 26 anos, solta "riffs". Já o DJ Guto, de 27 anos, com o mesmo movimento, dá o ritmo de um samba com batidas de tambor.

Pela extravagância, a banda, que tem apenas um ano de atividade e já lotou a boate The Week, no Rio, foi convidada até para tocar na última São Paulo Fashion Week, realizada em junho. "Buscamos um som diferente. A tecnologia propicia isso. Cada software de música, por exemplo, tem um som. Cada experiência com ‘instrumentos’ novos, como o Wii, nos leva a compor de forma diferente", explica Marion.

No palco, logo de cara a banda já mostra a sua veia tecnológica. Dos cinco integrantes, quatro ficam com notebooks ao lado para comandar sintetizadores digitais. Os próprios Wiimotes são conectados a esses laptops (veja mais ao lado). Na parte de cima, um telão exibe vídeos sincronizados com as músicas, mixados em tempo real pelo VJ Leonel Combecau, de 54 anos.

Nos shows, os controles do Wii são usados apenas em algumas músicas. Em outras, a vocalista Marion saca um minissintetizador de bolso, o DJ Guto faz "scratches" com samples e (pasmem!) o guitarrista Guedes empunha uma guitarra e o saxofonista Mario PC, de 43 anos, toca um saxofone.

Ué, guitarra, saxofone... Isso não é coisa do passado? "O lance não é substituir o que já existe, mas misturar com novas tecnologias.", diz o VJ Combecau. "É usar tudo: as novidades, que nos permitem ir além e buscar o novo, e a tradição, com toda a sua técnica já estabelecida."
Para saber o que está rolando de novidade - um novo sintetizador, um software de música, etc. - a galera da banda se joga na internet. "Buscar sonoridades diferentes sempre foi uma coisa comum. Na década de 60, o Pink Floyd já usava sintetizadores", lembra o guitarrista Guedes. "A diferença é que hoje qualquer um pode ter acesso. Se, nos anos 80, por exemplo, só alguns produtores tinham sintetizadores, que custavam US$ 50 mil, hoje qualquer um pode baixar da internet e descobrir como se faz."
Foi assim com o Wiimote. O Lens Kraftone não inventou a roda. Músicos por formação, eles aprenderam a "tocar" o Wiimote pela rede. "Um amigo me mostrou, há uns dois anos, que já havia experimentos na web. Saí correndo para comprar um Wiimote", lembra a vocalista Marion. Detalhe: ela adquiriu só o controle do Wii. Ninguém na banda tem o console. Basicamente, para funcionar o controle é conectado, via Bluetooth, ao notebook. Daí, um movimento para a esquerda, por exemplo, faz o laptop emitir um acorde.

"Depois de um ano, na internet foram aparecendo programas mais complexos, que permitiam fazer mais com o Wiimote do que simples barulhinhos", lembra ela. Foram dias e dias acompanhando vídeos no YouTube e fazendo testes para fazer o negócio funcionar. Foi preciso configurar como cada botão ou movimento do controle se comportaria. "Era muito chato. Mas agora é só diversão."
Segundo Marion, como outros "instrumentos", o Wiimote também tem as suas peculiaridades. "É uma forma totalmente diferente de tocar. Você pode se movimentar mais no palco, sem precisar ficar ao lado notebook. Pode colocar o controle nas mãos das pessoas. É mais interativo."
Lógico que há limitações. "Não dá para tocar melodias virtuosas, como um solo de guitarra. Mas é possível fazer bateria, baixo, percussão, riffs de guitarra", explica o guitarrista Guedes. "Quem sabe alguém não descobre uma técnica para resolver esse problema? Daqui a pouco, pode ter alguém tocando Brasileirinho com o Wii em um vídeo do YouTube."
O próprio grupo já está olhando para o futuro. O DJ Guto já sai da frente das pickups para se arriscar no Wiimote. "Numa banda de música eletrônica, o DJ é como se fosse um baterista. Não pode deixar a pista esfriar. Fui reticente quanto a experimentar o Wii. Mas está dando certo". Até o VJ Combecau já pensa em comandar as imagens do telão pelo controle. "Já vi pela internet gente fazendo isso. O céu é o limite."

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