Nem a crise financeira internacional, nem a rivalidade que divide ingleses e franceses impediu que a gigante da energia Électricité de France (EDF) anunciasse ontem, em Paris e Londres, a aquisição de sua concorrente British Energy. A transação, avaliada em 15,7 bilhões, é a maior já feita pelo grupo francês, o segundo maior gerador de energia do mundo - atrás da russa Gazprom.

Aprovada pelo governo britânico, a compra oferece à EDF a posição de hegemonia em um dos mercados de energia mais desejados do mundo e marca o retorno dos investimentos em energia nuclear no Reino Unido.

A oferta que convenceu os ingleses foi a segunda feita pela EDF. Há um mês, a companhia francesa havia proposto 0,765 por ação, mas os três principais acionistas do grupo - o governo britânico, com 35%, e os fundos de investimentos Invesco, com 15%, e M&G, com 7% - haviam recusado. A nova proposta, elaborada na noite de terça-feira, atingiu 0,774 e foi aceita pelo governo e pela direção da Invesco.

Eufóricos com o negócio, os franceses comemoraram o ingresso no mercado britânico de energia com a incorporação de oito centrais nucleares e uma carbonífera. "A aquisição histórica nos permite superar uma etapa em nossos projetos de desenvolvimento no Reino Unido, um mercado chave", celebrou Pierre Gadonneix, diretor-presidente do grupo.

A aquisição também foi saudada do outro lado do Canal da Mancha. O governo britânico viu com bons olhos a transferência do controle acionário de sua empresa, seduzido pela expertise francesa. A EDF é a maior exploradora mundial de energia atômica, com 58 reatores, e a Areva, que também tem investimentos no Brasil, desenvolve os mais modernos reatores do mercado.

Adrian Montague, presidente da British Energy, também destacou a importância da EDF para a retomada dos grandes investimentos no país. "O anúncio é particularmente importante para a BE", disse. "Ela nos permitirá desenvolver o papel da companhia no novo programa nuclear do Reino Unido."

Além do negócio, a EDF confirmou, de imediato, a construção de quatro novos reatores EPR - de última geração - na Inglaterra, o primeiro dos quais com funcionamento previsto para fim de 2012. A estratégia de investimentos atende aos interesses britânicos porque permitirá a retomada do programa nuclear no Reino Unido, explicou ao Estado Maïté Jaureguy-Naudin, diretora do Programa de Energia do Instituto de Relações Internacionais (Ifri), de Paris.

Há dois anos, a diretriz britânica de energia previa investimento maciço em fontes alternativas, como as energias eólica e solar. Mas, diante do desafio de reduzir as emissões de CO2 na atmosfera, a energia nuclear voltou aos planos. Nos próximos 15 anos, grande parte dos 27 reatores nucleares britânicos - responsáveis por 22% da eletricidade do país - terá de ser substituída, e há projetos de instalação de pelo menos 10 reatores no médio prazo.

"O governo britânico se decidiu pela renovação de seu parque nuclear, energia que se tornou uma alternativa rentável para enfrentar as novas metas criadas para enfrentar as mudanças climáticas", diz Maïté. "Era claro o interesse de Londres de atrair EDF e Areva para uma parceria em investimentos nucleares."

A companhia francesa, que planeja novas aquisições no mercado internacional, em especial nos Estados Unidos, não será, porém, a única do setor a explorar a energia nuclear no Reino Unido. A intenção das autoridades de concorrência britânicas é de obrigar a EDF a revender 25% das ações na British Gas à britânica Centrica por 3,91 bilhões. As alemãs E.ON e RWE também podem ampliar seus investimentos em produção de gás e de energia elétrica nuclear.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.