Tamanho do texto

Ex-ministro Delfim Netto deu nota 9,9 para o novo governo; especialistas listam acertos e desafios para os próximos quatro anos

A presidente Dilma Rousseff chega, no próximo domingo, aos 100 primeiros dias na Presidência da República. Entre avaliações políticas e econômicas, o saldo é positivo, na análise de especialistas como Delfim Netto, Octavio de Barros, Paulo Rabello de Castro e Yoshiaki Nakano. Eles participaram nesta quinta-feira do debate “Uma análise dos 100 primeiros dias do governo Dilma”, realizado pela Fecomercio de São Paulo e foram praticamente consensuais: a gestão da presidente é mais técnica e pragmática que a do antecessor Luiz Inácio Lula da Silva.

“Estamos diante de um governo mais racional, pragmático e mais parrudo gerencialmente que o governo precedente”, disse o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. “O governo Dilma é uma ‘heterodoxia disciplinada’. É um governo pragmático que se vir que o carro corre o risco de bater no muro não hesita e muda de pista”, completou.

O ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto se disse otimista com o atual governo – e deu como praticamente certa a reeleição de Dilma Rousseff, ao considerar que ainda restam mais de 2 mil dias para a presidente no Planalto. “Estamos caminhando para uma situação muito melhor do que estava. É uma evolução muito positiva.”

Segundo Delfim, o governo da petista merece nota 9,9. O décimo que faltou para a nota máxima foi atribuído ao modelo “extremamente ridículo” do Banco Central na análise da economia. “Há uma consciência clara de que a economia não é tão simples como parecia. Será a maior vergonha quando, daqui a 20 anos, analisarem esse modelinho de três equações – da qual não consta o crédito - que se dizia capaz de explicar o que estava acontecendo.”

Para o diretor da escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Yoshiaki Nakano, os 100 primeiros dias do governo brasileiro foram positivamente surpreendentes, pela condução técnica e pelas negociações no campo político. Ele, no entanto, reforçou que “o governo ainda não mostrou a que veio nas grandes questões”. “Faltam ousadia, metas claras e objetivos estabelecidos”, continuou Nakano, para que o País cumpra a agenda estabelecida.

O economista Paulo Rabello de Castro, presidente da RC Consultores e do Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomercio, disse que a análise dos 100 primeiros dias do governo é “injusta”, por conta dos outros dias que ainda restam. Entretanto, ele pontua que a avaliação é importante pelas “perspectivas que a economia brasileira oferece”.

Rabello citou uma pesquisa realizada junto aos diretores da Fecomercio, na qual a avaliação média do governo Dilma foi “suficiente” nas questões de promessas e programas de governo, imagem e realizações do governo Lula, desafios de conjuntura (inflação, déficit, competitividade e câmbio) e desafios permanentes (pobreza, acumulação, conhecimento, justiça fiscal e projeto Brasil).

Dilma x Lula

Ao comparar a gestão de Dilma com a de Lula, Octavio de Barros disse existir uma clara diferença: o Lula é o presidente da demanda e a Dilma, da oferta. “Muito possivelmente, a agenda da Dilma estará mais do lado de quem produz e de quem investe. Claro que ela tem desafios do lado da demanda, mas estamos diante de uma nova orientação”, afirmou.

O economista-chefe do Bradesco afirmou que o País vive perspectivas positivas para o longo prazo, sem “espaços para ceticismo”. Barros acredita que “O Brasil tem condições de ingressar em um ciclo de 30 gloriosos anos”. Para tanto, diz ele, a manutenção da liderança da China, um ajuste fiscal e a reforma da previdência são pilares fundamentais.

Para Rabello, uma das principais questões que a gestão Dilma deve se diferenciar de Lula é no tratamento dado aos juros. “O governo Lula pagou uma indecência de juros durante oito anos de mandato e a presidente Dilma está equivocada ao ameaçar o Brasil de pagar R$ 220 bilhões apenas em juros no ano corrente.”

“O grande desafio da presidente é não repetir a pauta velha. Somos um País que admissivelmente acabou com a inflação, mas que reluta em pedir o fim da indexação dos nossos contratos”, completou o economista da RC Consultores.

Mudanças

Yoshiaki Nakano considerou, por sua vez, que o Brasil passa por uma mudança abrupta, inciada em 2005. Esse movimento, explica, está associado à expansão do mercado doméstico e à mudança da confiança do empresariado brasileiro. “Quando você consegue formar uma massa crítica mínima disposta a fazer investimentos, o país vai para frente.”

Nakano pontuou que o crescimento do investimento em patamares superiores ao avanço do próprio PIB abre perspectivas positivas, mas “o grande problema é que o governo puxa o breque de mão o tempo todo”.

Ele projeta que, para crescer na casa dos 5% ao ano, o País precisará ampliar a taxa de investimento dos atuais 18% do PIB para algo em torno de 25% do PIB. “Aumentar essa taxa significa migrar recursos do consumo para investimento. A política do governo está voltada para o consumo e isso, claramente, tem um limite.”

O ex-ministro Delfim Netto reforçou a mudança social e econômica que o País atravessa. “Hoje, a empregada doméstica é uma espécie em extinção”, diz. “Ela virou manicure, depois telefonista do call center, depois foi trabalhar em uma loja e agora é gerente. Quando ela começou, usava sabão de coco. Hoje, usa Dove”, comparou.

Segundo Delfim, esse movimento explica o desarranjo existente entre oferta e demanda no setor de serviços, que gera a pressão inflacionária vista atualmente.

Desafios

Diante do descompasso entre oferta e demanda, um dos grandes desafios para o governo Dilma no curto prazo é o controle da inflação. Octavio de Barros, do Bradesco, diz que a pressão maior vem por parte do setor de serviços, “que essencialmente traduz essa pressão sobre o mercado de trabalho”.

Ele acredita, por outro lado, que o empresário brasileiro não está com foco no horizonte de 2011. “Pelos nossos estudos, nenhum empresário está preocupado com o crescimento deste ano. O horizonte é muito mais amplo.”

Octavio defende, neste início de governo, um combate à desancoragem e à indexação da economia. “Isso deixou de ser um tema apenas do Banco Central”, diz.

Já Rabello defendeu que o corte no Orçamento de R$ 50 bilhões é insuficiente para atingir a meta de controle da despesa pública. “Se desconsiderarmos o aporte feito na capitalização da Petrobras, teremos um aumento real de 5% nos gastos públicos.” Ele defendeu, também, o enquadramento das taxas de juros do País com relação ao mundo. “Esse é o problema central da entrada de recursos. Está na hora de o Brasil praticar taxa de juros normais.”

Sobre a valorização do real frente ao dólar, Rabello afirmou que o problema é estrutural. “Não adianta ficar ‘botando rolha no casco do navio’, quando a pressão interna e externa sobre a estrutura é muito mais forte que a capacidade de um IOF a 6%, 7%, 8% pode suportar.”

Nakano, por sua vez, disse que o governo enfrenta desafios na esfera externa, fiscal e monetária. No setor externo, ele defende que o País mude a integração no mercado global. “O Brasil optou por integrar via mercado financeiro, mas quem quer crescer precisa de integração via comércio.”

Em relação à questão fiscal, o diretor da FGV afirmou que é preciso “mudar o pacto pró gastança”. “O governo está estimulando o consumo e não o investimento. Precisamos fazer um ajuste fiscal.”

Por fim, Nakano elogiou a postura do Banco Central, mas criticou a política monetária. “É muito pouco eficaz. O que segura a inflação no País é a apreciação cambial. Se olharmos em que período o BC conseguiu atingir as metas de inflação foi quando o câmbio apreciou abruptamente. Aí é muito fácil”, completou.

    Leia tudo sobre: lula
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.