Em sua primeira visita oficial ao Brasil, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ofereceu ao governo brasileiro uma extensa agenda política. Do Irã à Venezuela, passando pelo terremoto no Chile e a sucessão presidencial em Honduras, todos os assuntos foram abordados. A agenda econômica, no entanto, ficou em segundo plano.

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"Muito pouco foi discutido sobre as relações comerciais", disse o embaixador Pedro Luiz Carneiro de Mendonça, subsecretário-geral de Assuntos Econômicos e Tecnológicos do Itamaraty. "Houve uma breve conversa sobre OMC e sobre o processo de aquisição dos caças, mas nem a secretária (Hillary) e nem o chanceler (Celso Amorim) se estenderam nos assuntos."

A agenda de Hillary mostra uma troca do Brasil econômico pelo Brasil político. Presença garantida nos principais fóruns mundiais, o País ganhou relevância na hora de tratar assuntos globais, como os abordados pela secretária de Estado. O problema é que, em parte pela própria crise americana, que acabou retraindo o comércio internacional em privilégio do rearranjo das contas internas, as relações bilaterais sofreram um abalo em sua parte fundamental, a economia.

Os dados da balança comercial mostram bem isso. Nos últimos 20 anos, o Brasil teve déficit em apenas cinco deles, no período entre 1995 e 1999. Desde então, a curva das exportações brasileiras vinha crescendo em um ritmo muito superior a das importações. O problema apareceu no ano passado, quando o que antes era um portentoso saldo na casa dos US$ 6 bilhões acabou virando um déficit de US$ 4,4 bilhões.

Arte iG

O quadro seria ainda pior se toda a promoção comercial brasileira não tivesse feito a diversificação de nossa pauta exportadora. De primeiro lugar inconteste, os Estados Unidos perderam a liderança no ranking de principais parceiros comerciais para a China pela primeira vez na história em março do ano passado. De lá para cá, eles ainda não conseguiram recuperar o posto.

Mesmo não se tratando de um alerta, o governo brasileiro tenta agora reverter este quadro. Menos por uma preferência pelos Estados Unidos e mais por uma política de não-dependência de um mercado único, ainda mais em se tratando do chinês, que nos dá mais déficits e dores de cabeça do que superávits.

"A ideia é ter prioridade no mercado americano", confirmou o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, em seminário na Amcham. "Estamos aumentando as ações, principalmente na área de promoção comercial. Mas o risco agora é que, com a recuperação da economia dos Estados Unidos, o Brasil não consiga repor sua fatia naquele mercado."

Retomada do comércio

Essa recuperação é que deveria estar na agenda de Hillary, na opinião de especialistas. Num momento em que o governo americano busca parceiros políticos para suas empreitadas internacionais, como no caso envolvendo o Irã e seu processo de enriquecimento de urânio, assinalar concessões comerciais com o Brasil teria efeitos mais contundentes que um mero pedido de afastamento em relação ao país árabe.

"O mundo fala a língua do dinheiro", atesta Amado Luiz Cervo, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. "A Rodada Doha e as conferências para o clima mostraram que não há ação sem reação. Para que pudessem contar com o apoio brasileiro em suas ações, os Estados Unidos teriam de começar por algum lugar, como o fim de algumas barreiras tarifárias, por exemplo."

Esse, inclusive, foi o tema que empresários americanos tentaram apresentar a Hillary Clinton num encontro na faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, na noite da quarta-feira (3). Nove presidentes de empresas americanas instaladas no Brasil pediram à secretária de Estado que intercedesse ao governo brasileiro pela não-aplicação do direito de retaliação concedido pela Organização Mundial do Comércio.

A "multa", no valor de US$ 830 milhões, deve-se aos subsídios concedidos pelo governo americano à indústria de algodão. Hillary ouviu - mas, sem autorização do presidente Barack Obama e do Congresso americano, não teceu comentários, segundo a embaixada americana, que acrescentou que a secretária de Estado pedira um encontro com empresários que apoiassem projetos sociais no Brasil.

"Não é de nosso interesse aplicar uma retaliação dessas e muito menos de interesse deles", afirma o economista Roberto Giannetti da Fonseca, diretor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). "Seria muito mais interessante entrar num acordo, mas parece que não durante essa visita que veremos isso."

A presença americana no Brasil, no entanto, não pode ser desconsiderada. Os Estados Unidos ainda são os maiores investidores diretos no País. O estoque ultrapassa a casa os US$ 52,8 bilhões e, a cada ano, são investidos, em média, US$ 4 bilhões.

Caças

De fato, o principal tema econômico abordado por Hillarry foi o lobby em favor dos caças F18 Super Hornet, da americana Boeing. Durante o encontro com o presidente Lula, a secretária de Estado tentou reverter o que chamou de "falta de confiança" que o Brasil tem em relação aos americanos na disputa pela compra dos equipamentos que equiparão a Força Aérea pelos próximos 30 anos.

O governo brasileiro, porém, já manifestou por diversas vezes a sua preferência pela parceria estratégica com a França. E o ministro da Defesa Nelson Jobim fez, em várias entrevistas, críticas diretas à proposta americana, dizendo que os "precedentes" dos EUA de transferência de tecnologia "não são bons".

Na decisão do Planalto, que está sendo aguardada para o final deste mês, o F-18 Super Hornet americano está disputando com o Rafale francês e o Gripen sueco.

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