César Muñoz Acebes. Washington, 20 dez (EFE).- O ano de 2008 ficará marcado por recordes negativos gerados por uma crise do setor imobiliário americano que afundou o sistema financeiro e arrastou o resto de sua economia e a do planeta.

Foram registradas quedas sem precedentes dos preços dos imóveis no país, da confiança de seus consumidores e da inadimplência das letras de câmbio de empresas em nível internacional.

Ninguém poderia prever há um ano o impacto que a economia sofreu em 2008. Os problemas em 2007 estavam limitados às hipotecas de alto risco americanas ("subprime"), concedidas a pessoas com problemas em seu histórico de crédito, e se falava de um arrefecimento da economia, mas não de queda livre.

"O 'subprime' é um segmento pequeno do mercado hipotecário dos Estados Unidos, mas veja a crise mundial à qual levou (...). A crise pegou todos de surpresa", disse à Agência Efe Yusuke Horiguchi, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, em inglês), a maior associação de bancos do mundo.

O salto da inadimplência nessas hipotecas foi o resultado da explosão de uma clássica bolha de preços, neste caso do setor imobiliário.

A diferença desta vez foi que os bancos juntaram essas hipotecas em títulos complexos, de modo que, no final, nem sequer os diretores das entidades que investiram neles sabiam o que tinham comprado.

Essa falta de transparência nas contas deu lugar a uma crise de confiança nos mercados e a um desejo por parte dos bancos de acumular dinheiro, em vez de estender empréstimos a outra entidade financeira que talvez escondesse "barris" de títulos "podres" em seus porões.

A gota d'água foi a falência, em setembro, do banco de investimentos Lehman Brothers, que sacudiu os investidores de todo o mundo que possuíam letras de câmbio da empresa e espalhou pânico nos pregões mundiais.

A crise mundial também colocou fim ao mito de que os países em desenvolvimento poderiam sobreviver imunes ao desastre no mundo rico.

"Os fundos de risco e os bancos precisam de liquidez e, por isso, venderam posições nos mercados emergentes. O contágio foi generalizado", disse Desmond Lachman, um economista do centro de estudos American Enterprise Institute (AEI, em inglês).

Com a economia em colapso, a Administração do presidente George W. Bush, um republicano que acredita que o livre mercado é o paradigma da eficiência, acabou cedendo à pressão para interferir contra a crise.

Bush basicamente abraçou as idéias de Maynard Keynes, o economista britânico considerado um herói entre os defensores do papel público na economia.

"Keynes diz que o Governo tem de intervir e combater a deflação", disse Richard Sylla, historiador econômico da Universidade de Nova York.

A deflação, que é a queda generalizada de preços, substituiu a inflação provocada pela escalada do petróleo como a principal preocupação dos bancos centrais dos países desenvolvidos.

Desde o começo do ano, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduziu a taxa básica de juros de 4,25% para 1%, e a maioria dos analistas espera outro corte de 0,5 ponto percentual ainda em 2008.

O Fed adotou uma longa lista de medidas heterodoxas para injetar liquidez, da compra direta de letras de câmbio de empresas até a aquisição de títulos hipotecários.

Para seu último programa, poderá usar até US$ 800 bilhões, que se acrescentam aos quase US$ 900 bilhões em empréstimos de todo tipo que forneceu até agora.

Já a Casa Branca conseguiu a aprovação no Congresso de cortes tributários de mais de US$ 150 bilhões na primeira metade do ano, e de um fundo de US$ 700 bilhões para intervir nos mercados na segunda metade de 2008.

Com isso, os analistas prevêem que o déficit público superará a barreira de US$ 1 trilhão neste ano fiscal, que começou em outubro, o que seria outro recorde para esquecer na economia americana. EFE cma/mh/an

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