Fundo levou 7 meses para acertar projeções para a zona do Euro após a crise; para economistas, atraso se deve à busca do consenso

Diretor-gerente do FMI diz que há exagero do mercado sobre crise europeia
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Diretor-gerente do FMI diz que há exagero do mercado sobre crise europeia
Na mesma medida em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) errou todas as projeções para o Brasil desde o início da crise financeira, em setembro de 2008, ele fez previsões mais condescendentes para a União Europeia. Levantamento realizado pelo iG com base nos dados dos World Economic Outlooks (WEOs), relatórios trimestrais divulgados pelo FMI, apontou que a instituição demorou sete meses para projetar o real impacto do maior baque econômico dos últimos 80 anos nos PIBs dos principais países europeus.

Entre julho de 2008 e janeiro de 2010, foram divulgadas oito versões do WEO, sendo quatro atualizações. Na última edição antes do estouro da crise, o FMI esperava crescimento de 1,2% para o PIB da zona do euro. Em janeiro de 2009, três edições depois, os números apontavam para queda de 2%. Somente a partir de abril do ano passado, os números se aproximaram dos 4,1% de queda que foram confirmados pela Eurostat, agência oficial da zona do euro.

“As projeções do FMI, muitas vezes, têm atraso. Por natureza, elas demoram para ser ajustadas às notícias e requerem aprovação de governos locais”, diz Jim O'Neill, economista-chefe do Goldman Sachs. “Infelizmente, é normal [o FMI errar projeções]. Eu nem presto atenção a elas porque fazem parte de um consenso [entre países-membro].”

Um porta-voz do Fundo, que preferiu não se identificar, disse que o FMI publica projeções de crescimento atualizadas para os principais países cinco vezes por ano. “Internamente, os dados são atualizados de forma contínua, dependendo das informações de cada país”, afirma.

Fonte: FMI e Eurostat
Arte iG
Fonte: FMI e Eurostat

“No caso das projeções para a zona do euro, os nossos números do WEO já em abril de 2009 estavam significativamente abaixo do consenso dos analistas naquele momento, mas terminaram por estar mais próximas da realidade”, diz o porta-voz do FMI. “O Fundo projetou -4,2% para 2009, enquanto o consenso do mercado era de -3,4%. O número final acabou sendo de -4,1%.”

Segundo Antonio Corrêa de Lacerda, professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP, o FMI “não tem uma boa tradição em previsões, nem de avaliação de política econômica”. Ele cita como exemplo o caso da Argentina, no fim dos anos 1990. “Quando os argentinos estavam à beira de uma crise, o FMI defendia o regime cambial do país e, inclusive, chegou a recomendá-lo a outros países, como o Brasil.”

Nova postura

Lacerda pontua, por outro lado, que há uma mudança de postura do Fundo desde o início da atual gestão de Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do fundo. “O mundo mudou e o FMI não mudou o suficiente", diz. "Somente nos dois últimos anos é que o Fundo passou a olhar com mais inteligência a situação da economia.”

Segundo Lacerda, a postura tem a ver com a linha de pensamento econômico. "O FMI aderiu nos anos 1980 e 1990 ao neoliberalismo e foi uma canoa furada", diz. "O Strauss-Kahn e sua equipe trouxeram uma visão mais heterodoxa e mais arejada. A ortodoxia se mostrou incompetente para avaliar crises.”

Tendências

Os economistas são unânimes ao dizer que o que realmente importa nas projeções é apontar a tendência correta, não o número em si. “O problema é que o mercado e a imprensa pedem um número cravado”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Ele sai em defesa do FMI e diz que a crise prejudica qualquer avaliação econômica. “A crise é mortal para projeções”, considera. “Em uma estrutura como a do FMI fica difícil ter sensibilidade de todos os dados para todos os países. Eles trabalham com grandes modelos agregados, que têm dificuldade de captar essas nuances. Mas não podemos considerar um erro, já que em geral a instituição acerta a tendência.”

Antonio Corrêa de Lacerda concorda. “O capitalismo é instável por natureza, mas é preciso fazer um diagnóstico correto. É mais importante até que acertar a projeção numérica”, conclui.

Com o cenário menos turbulento em 2010, as projeções do FMI parecem mais alinhadas. Os números do Fundo para os PIBs europeus neste ano estão próximos dos projetados para a Eurostat ( confira na tabela abaixo ).

Fonte: FMI e Eurostat
Arte iG
Fonte: FMI e Eurostat

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