SÃO PAULO - Refletindo a crescente incerteza externa sobre o funcionamento do sistema financeiro e o desmanche de posições em todos os mercados, a moeda norte-americana teve mais um pregão de forte valorização ante o real, e passa a acumular alta de 5,12% em 2008. O dólar comercial fechou o dia com valorização de 2,41%, negociado a R$ 1,866 na compra e R$ 1,868 na venda, maior patamar de preço desde setembro de 2007. No começo da tarde, momento de maior incerteza do dia, a divisa disparou 3,62%, testando R$ 1,890.

Na roda de "pronto" da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), a moeda fechou com alta de 2,31%, valendo R$ 1,861. O volume financeiro somou US$ 203 milhões. O giro interbancário foi de US$ 3,5 bilhões, mais de duas vezes superior ao registrado ontem, o que indica algum fluxo firme de saída.

Para ilustrar como a perda de valor do real foi acentuada, até metade da tarde a única moeda do mundo que caía mais do que a brasileira era o dólar de Zimbábue, com cerca de 7% de baixa.

"Os agentes estão apavorados", resume o operador de mercados futuros da Terra Futuros, Daniel Negrisolo, para quem o mercado já começa a questionar não só os bancos, mas também a capacidade do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, e do Tesouro norte-americano de continuar emitindo - e depois honrar - títulos da dívida para fazer frente aos problemas no mercado financeiro.

Vale lembrar que em apenas duas semanas, o governo dos EUA seja já se comprometeu a injetar US$ 200 bilhões na Freddie Mac e Fannie Mae, e outros US$ 85 bilhões na seguradora AIG.

Por ora, os investidores continuam correndo para o "porto seguro" dos títulos norte-americanos (Treasury), único ativo com risco teórico zero. Negrisolo chama atenção para o Treasury de 3 anos, que teve a maior queda de taxa diária desde 1954. "Isso quer dizer que os agentes estão apavorados, e só aceitam comprar título de curto prazo dos EUA, mesmo que o retorno real seja negativo", afirma.

Outro sinal dessa aversão a qualquer coisa que não sejam investimentos com caráter de proteção é a disparada no preço no ouro, que subiu 9% hoje, e da prata. Com menor intensidade, a valorização do euro e outras moedas do G10 ante o dólar também reflete isso, além de mostrar que essa inundação de dólares para cobrir rombos com bancos e mesmo para comprar títulos começa a afetar negativamente o preço da moeda norte-americana frente a outras moedas fortes.

Voltando o foco para o comportamento do dólar no mercado interno, Negrisolo aponta que não existiria fundamento para essa disparada de preço nos últimos dias. Sinal claro disso é o resultado do fluxo cambial até o dia 12 de setembro, que estava positivo em R$ 4,3 bilhões.

Ou seja, o dólar subiu não por falta de oferta, mas por operações com derivativos no mercado futuro. Tal percepção fica confirmada ao se observar a evolução das posições compradas (apostas contra o real) na BM & F. Segundo o operador, na virada de setembro, os investidores estrangeiros tinham pouco mais de US$ 600 milhões comprados em contratos futuros, mas, até ontem, esse montante já tinha subindo para US$ 9 bilhões.

Segundo Negrisolo, os investidores estão atrás de proteção, zerando posições e comprando moeda. "E os investidores vão comprar dólar até perceber que os problemas acabaram", aposta.

O analista também afirma que o mercado assiste à reversão do que foi tido como um ciclo virtuoso nos últimos anos, composto por alta no preço das commodities, queda no dólar e alta na Bovespa. Agora, o ciclo é vicioso, com queda nas commodities, baixa na bolsa e alta do dólar. "O mercado está em crise sistêmica, não há dúvida. E pode ficar pior."
"(Eduardo Campos | Valor Online)"

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