A valorização quase ininterrupta do real entre 2003 e agosto de 2008 fez com que a maioria das empresas brasileiras abandonasse a prática de hedge - instrumento financeiro que as protege de variações bruscas das cotações. No entanto, a disparada da moeda americana (48% entre agosto e terça-feira) já provoca uma reversão.

Dados da BM&F Bovespa revelam que o número de contratos no mercado futuro de dólar detidos por pessoas jurídicas não financeiras (empresas em geral, excetuando-se bancos) alcançou na terça-feira 101.350 unidades, ante 86.923 no dia 5 de setembro - antes de a atual fase da turbulência começar. É uma alta de 16,6%.

Ironicamente, esse movimento ajuda a valorizar a moeda americana, uma vez que as posições assumidas pelos agentes econômico-financeiros na bolsa acabam se refletindo no mercado à vista. Ao menos outros dois fatores respondem pela alta recente do dólar.

O primeiro está relacionado às posições de companhias no mercado de derivativos, assumidas quando o real se valorizava - derivativo é um ativo financeiro que deriva de outro.

Ninguém sabe ao certo o tamanho dessa exposição, o que tem provocado muita tensão nos bastidores do mercado. Segundo um analista, só em um dos produtos comprados pelas empresas haveria exposição de US$ 50 bilhões - o que não significa necessariamente perda.

Esses produtos financeiros foram vendidos a partir de 2007. Em um deles, por exemplo, o banco oferecia à empresa um empréstimo com uma taxa de juro abaixo da média do mercado. Em contrapartida, a empresa assumia o risco de ter de pagar um juro bem mais elevado se a taxa de câmbio ultrapassasse determinado nível.

"É o subprime brasileiro", compara um especialista. "Subprime no sentido de que, com a queda dos juros aqui dentro, os bancos tiveram de buscar outras formas de ganhar dinheiro. Inventaram esses produtos, que pagaram belas comissões a quem as vendeu."

A Sadia anunciou perda de R$ 760 milhões com esse tipo de operação. A Aracruz informou, em 29 de setembro, que tinha um prejuízo potencial de R$ 1,95 bilhão, que poderia crescer ou diminuir conforme a variação do dólar até a data de liquidação do empréstimo.

Muitas empresas, porém, ainda não disseram quanto perderam - ou podem perder - com as transações. Para piorar, não há dados públicos disponíveis a respeito. "Todo mundo fazia e ganhou muito dinheiro com isso", diz um executivo. Parte da alta do dólar se deve à demanda dessas companhias pela moeda. O objetivo delas é liquidar as posições e, assim, não ficarem mais expostas ao vaivém das cotações.


Segundo um economista, o Banco Central (BC) teve de vender dólares das reservas ontem por isso. Até então, as intervenções vinham sendo feitas por meio da venda de contratos de swap (troca de indexador, na qual o BC ganha a variação do juro e o comprador, do dólar). "Isso não resolvia o problema das empresas", afirma.

O terceiro fator que explica a disparada da moeda é a escassez de linhas de crédito concedidas por bancos estrangeiros, em decorrência da crise. "Acabou o funding externo para ACC (adiantamento de contrato de câmbio)", diz o diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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