Desde o início da crise, 273 bancos fecharam as portas nos Estados Unidos e apenas um executivo foi parar atrás das grades

Até o início de setembro, pouca gente tinha ouvido falar do banco Horizon. Fundado em 1873, em Michigan, nos Estados Unidos, ele dispunha de US$ 187,8 milhões em ativos, US$ 164,6 milhões em depósitos e apenas quatro agências. Na semana passada, no entanto, o banco ganhou destaque em jornais e sites em todo o mundo. O motivo? O Horizon é a mais recente vítima da quebradeira no sistema financeiro do país que teve início em setembro de 2008, quando o Lehman Brothers entrou com o maior pedido de falência da história e desencadeou a mais severa crise econômica mundial desde a Crise de 1929, que gerou a Grande Depressão dos anos 1930.

Desde o início do ano, 119 bancos fecharam as portas nos Estados Unidos – quase o mesmo número registrado em todo o ano de 2009. Nos últimos 24 meses foram 273 falências, equivalente a 4% do total. Entre outubro de 2000, quando o governo passou a divulgar esses dados, e agosto de 2008, um mês antes do início da crise, apenas 37 bancos quebraram nos Estados Unidos. “A quebra do Lehman Brothers paralisou o mercado financeiro e provocou um efeito cascata”, disse Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da consultoria Austin Rating.

Richard Fuld durante depoimento na Câmara dos EUA no auge da crise
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Richard Fuld durante depoimento na Câmara dos EUA no auge da crise
A falência do Lehman Brothers pegou muita gente de surpresa. Com 25 mil funcionários, o banco de investimento era o quarto maior de Wall Street e o mais antigo. Fundado em 1850, havia sobrevivido a períodos de vacas magras e passou incólume pela crise iniciada em 1929, a mais longa do século 20. Pouco antes de quebrar, o Lehman Brothers contabilizava mais de US$ 600 bilhões em ativos e se gabava de manter relacionamento estreito com algumas das maiores instituições financeiras do mundo. Para analistas, o banco era muito grande para cair.

A crise econômica que se seguiu à falência teve consequências catastróficas. Nos Estados Unidos, nove das 20 maiores quebras de empresas nas últimas três décadas aconteceram em 2008 e 2009. O ano passado ficou marcado por registrar o maior número de falências bilionárias de toda a história. E esse número não para de crescer. No período de 12 meses encerrado em junho, o pedido de concordata duplicou em relação aos anos anteriores.

A queda do Lehman Brothers é apontada como o início da crise econômica que resultou na evaporação de empresas e de milhões de empregos em todo o mundo. Mas a origem da recessão pode ser identificada alguns anos antes, no mercado imobiliário americano, e está ligada aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Para tirar os Estados Unidos de uma recessão econômica causada pela queda das Torres Gêmeas, o então presidente do Banco Central americano, Alan Greenspan, mandou cortar as taxas de juros do país.

A medida fez com as pessoas voltassem a comprar, as empresas começaram a prosperar e os bancos disponibilizaram mais recursos. Com o excesso de dinheiro, passaram a conceder crédito para pessoas com pouca – ou nenhuma – condição de saldar a hipoteca de suas casas, o que ficou conhecido como mercado subprime. Para minimizar os riscos, os bancos emitiram títulos de qualidade duvidosa. Com o estouro da bolha, os preços dos imóveis caíram e os bancos ligados ao setor ficaram com um rombo nas contas.

Perdas globais

Estudo realizado pela Comissão Europeia deu um aperitivo do estado das instituições financeiras. De acordo com o relatório, os bancos de todo o mundo perderam US$ 500 bilhões nos meses que antecederam a falência do Lehman Brothers. O Bear Stearns foi um dos primeiros a acusar o golpe. Em março de 2008, o banco pediu falência e foi vendido por US$ 236 milhões para o JP Morgan. Cinco meses depois, o economista Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, deixou o mercado arrepiado durante uma conferência realizada em Cingapura. “Não vamos ver apenas bancos de tamanho médio quebrar nos próximos meses”, disse Rogoff. “Vamos ver um dos grandes”. Ele estava certo. Menos de trinta dias depois, o Merrill Lynch e o Lehman Brothers, respectivamente terceiro e quarto maiores bancos de investimento dos Estados Unidos, sucumbiram. O Citigroup, que já foi considerado o mais poderoso banco americano, viu o preço das suas ações despencar 95,5% para US$ 0,97, o menor nível de sua história. A AIG, uma das maiores seguradoras do mundo, perdeu 80% de seu valor de mercado em apenas um dia, antes de ser socorrido pelo governo americano com um pacote bilionário de dólares.

Um dos pivôs da crise, o ex-presidente do Lehman Brothers Richard Fuld voltou aos holofotes em agosto, após um período de reclusão. Conhecido como Dick, ele foi convocado para depor sobre as decisões que resultaram na falência do banco. Nascido em 1946 em Nova York, Fuld tinha apenas 23 anos quando começou sua carreira no banco de investimento. Além de dinheiro, respeito e alguns inimigos, seu estilo agressivo lhe rendeu um outro apelido: Gorila.

Operadores da Bolsa de Nova York desalentados em meio à quebra do banco de investimento Lehman Brothers
AP
Operadores da Bolsa de Nova York desalentados em meio à quebra do banco de investimento Lehman Brothers
Passados dois anos da falência do Lehman Brothers, Fuld parece não ter perdido a arrogância. Durante o depoimento, culpou forças incontroláveis do mercado pela quebra do banco. “Se o Lehman Brothers tivesse recebido a mesma ajuda que seus competidores, ele não teria sucumbido”, afirmou Fuld. Em agosto, o advogado que está cuidando da falência do banco disse que o processo deve durar mais dois anos e pode custar até US$ 2 bilhões.

Desde que deixou a presidência do banco, em novembro de 2008, Fuld se prepara para a avalanche de processos que devem ser abertos contra ele e outros executivos nos próximos meses. A preocupação tem fundamento. A SEC, entidade que regula o mercado de capitais nos Estados Unidos, está sob pressão para que os culpados pela crise sejam punidos. Desde setembro de 2008, apenas um executivo foi parar atrás das grades, o investidor Bernard Madoff.

Por ironia, Madoff não foi preso por estar à frente de uma das empresas que provocaram o efeito cascata no mercado. Ex-presidente da Nasdaq, ele montou um esquema Ponzi, programa de investimento que oferece retorno altíssimo e paga os investidores com o capital trazido pelos investidores subsequentes. Como os investidores começaram a tirar seu dinheiro do mercado de capitais, Madoff não tinha recursos para atender a todos. “O Madoff foi preso por causa do pânico que tomou conta dos investidores”, afirmou Harry Markopolos, um matemático americano que escreveu um livro sobre as denúncias que fez contra Madoff.

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