Por Isabel Versiani BRASÍLIA (Reuters) - A escalada da inflação, que forçou o Banco Central a apertar a política monetária, já elevou os gastos do governo com o pagamento de juros e tende a reduzir a oferta de crédito para pessoas físicas e empresas.

A inflação afeta diretamente a dívida interna do governo federal atrelada à Selic e também os títulos públicos corrigidos por índices de preços, que somam 27 por cento da dívida mobiliária total.

As duas elevações da Selic terão impacto de cerca de 4,6 bilhões de reais sobre os gastos com juros em 12 meses. A dívida mobiliária total soma 1,2 trilhão de reais.

Diante do novo quadro, o Banco Central elevou sua projeção para os gastos do setor público como um todo com juros este ano para 5,8 por cento do PIB, ante estimativa anterior de 5,4 por cento do PIB.

O impacto sobre a relação dívida/Produto Interno Bruto é menos direto porque a inflação também infla o dado deflacionado do PIB usado pelo BC para o cálculo.

Alimentada pelo aumento das commodities no mercado internacional e pela demanda interna aquecida, a inflação já ameaça superar o teto da meta neste ano. Daí o aperto monetário iniciado em abril e que já elevou a Selic em 1,0 ponto percentual, para 12,25 por cento ao ano.

O BC detectou uma desaceleração no crédito às pessoas físicas em maio, que atribuiu em parte ao aumento do juro. Os dados também revelaram um pequeno aumento da inadimplência.

'Você tem uma clara acomodação no crédito à pessoa física, principalmente no crédito pessoal', afirmou o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, em entrevista recente.

O estoque de crédito às pessoas físicas cresceu 1,4 por cento em maio sobre abril, ante alta de 2,0 por cento no período anterior. No ano, o crescimento é de 9,0 por cento.

Para o estrategista-chefe Alexandre Lintz, do BNP Paribas, essa acomodação reflete postura mais cautelosa por parte dos bancos diante da tendência de os consumidores terem mais dificuldades para honrar os financiamentos. 'Deve haver mais restrição de oferta de crédito, que crescerá a taxas um pouco mais moderadas', estimou.

ALERTA SOBRE INADIMPLÊNCIA

A Acrefi, entidade que representa instituições de crédito, reduziu sua projeção de crescimento do crédito em 2008 para 25 por cento, ante estimativa feita no final do ano passado de alta de 40 por cento.

José Arthur Assunção, vice-presidente da associação, afirma que, diante do aumento dos preços, as instituições financeiras passaram a exigir que os tomadores comprometam uma parcela menor de sua renda no pagamento do crédito. A média caiu para algo entre 20 a 23 por cento, de um patamar anterior de 25 a 30 por cento no início do ano.

'As financeiras estão olhando com mais cuidado o tomador de crédito. A idéia é garantir que o crédito seja uma solução, e não um problema', afirmou Assunção.

A parcela de tomadores de empréstimos com atrasos superiores a 90 dias subiu para 7,3 por cento em maio, patamar observado pela última vez em fevereiro de 2007, segundo dados do Banco Central.

Em abril, a inadimplência média estava em 7,1 por cento.

(Edição de Daniela Machado)

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