Apesar da rejeição na segunda-feira do plano de resgate do sistema bancário americano pela Câmara dos Representantes, os economistas acreditam que a ameaça de uma recessão longa e profunda obrigará o Congresso americano a voltar atrás e adotá-lo.

"E se o veto ao plano de US$ 700 bilhões proposto pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson, causar finalmente, após uma semana de duras negociações no Congresso, um momento de clareza entre os dirigentes políticos americano?, aventa Adolfo Laurenti, especialista do gabinete Mesirow Financial.

Segundo ele, no início, o plano dividiu profundamente os americanos, pois muitos pensam que os benefícios do pacote seriam apenas para Wall Street.

"Acho que alguma coisa vai acontecer. Os políticos se dedicaram muito, eles precisam chegar a alguma coisa", comentou.

Robert MacIntosh, chefe economista do Eaton Vance, também acha que o Congresso acabará aprovando o plano de resgate, destinado a enxugar os créditos duvidosos acumulados pelos bancos do setor imobiliário.

"Precisamos deste plano, isso é perfeitamente claro. Eu sei que os políticos têm tendência a fazer politicagem, em particular no período eleitoral, mas os mercados estão decepcionados e frustrados", avaliou.

"Se o projeto não for adotado, acho que teremos uma recessão muito profunda", disse ainda.

Aaron Smith, analista do site Economy.com, explicou por sua vez que os mercados financeiros continuam sob tensão: os bancos conservam sua liquidez em vez de emprestar entre eles, e mantêm taxas elevadas, como conseqüência o bloqueio do crédito necessário ao crescimento da economia.

Segundo ele, a única opção possível para acalmar o setor seria uma redução das taxas de juros do Federal Reserve (Fed, BC americano), em coordenação com outros bancos centrais.

"O nervosismo no setor financeiro se tornou rapidamente uma questão macroeconômica. Como estamos vivendo os dias mais tumultuados da história das finanças, as chances para que o Federal Reserve reduza suas taxas vão aumentar nas próximas 48 horas", garantiu.

Uma queda das taxas de 50 ou 100 pontos de base "não provocará uma baixa do custo dos empréstimos, mas devolverá confiança aos mercados. O impacto pode ser ainda maior se os outros bancos centrais se juntarem ao Fed", comentou.

A rejeição do plano derrubou a Bolsa de Nova York na segunda-feira: o Dow Jones perdeu 6,98%, ou seja, uma perda inédita de quase 800 pontos, e o Nasdaq 9,14%. Os outros mercados também caíram: mais de 4% de queda em Frankfurt, mais de 5% em Londres e Paris. No Brasil, São Paulo suspendeu suas operações durante meia hora após uma queda de 10% do índice Ibovespa.

"Houve uma baixa generalizada, mas que não chegou ao rombo que muitos esperavam", confessou Adolfo Laurenti, considerando que "ainda temos tempo para ver como a questão vai ser resolvida em Washington".

"Evidentemente, não podemos reviver eternamente dias como este (de ontem)", continuou "Se tivermos uma terça ou uma quarta-feira como a segunda-feira (de ontem), será um sinal de que estamos em ponto de quebra", disse.

Andrew Busch, analista da BMO Capital Markets, acredita que os parlamentares americanos não poderão ficar insensíveis à tempestade que está caindo sobre os mercados financeiros.

"Republicanos e democratas sabem ainda com certeza com qual rapidez Wall Street reage a sua inação", explicou. "Os dois partidos sabem que alguma coisa tem que ser feita. Eu acho que isto acontecerá antes do fim da semana", afirmou.

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