Crise fez instituições reavaliar seus credos, mas especialistas veem pressão política

Diante da crise financeira, que começou nos Estados Unidos e se espalhou por economias no mundo todo após a quebra do banco de investimento Lehman Brothers, em setembro de 2008, o Fundo Monetário Internacional (FMI) vem partindo para uma postura de “flexibilização” de suas teorias econômicas. Membros da instituição passaram a sugerir o controle maior do fluxo de capitais entre os países e a adoção de metas de inflação mais frouxas, atitudes completamente fora do receituário do Fundos nas últimas décadas.

Criado em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Fundo durante as décadas de 1970, 1980 e 1990 mostrou-se o guardião da ortodoxia econômica. Impôs regras duras aos países que recorriam a seus cofres, invariavelmente recomendando o corte de gastos a qualquer custo, mesmo que isso significasse o resfriamento da economia.

Com a crise financeira que abalou o mundo, medidas de emergência adotadas por diversos países tiveram o respaldo do FMI, apesar de terem aumentado de forma significativa os gastos públicos. “Não dava para exigir o controle das contas em um momento como esse. O Fundo precisava ser pragmático”, justifica a professora do Instituto de Economia da Unicamp, Daniela Prates. Ela afirma que há uma mudança na forma de pensar dentro da instituição. “A crise foi muito forte, a maior desde 1929, e isso seria natural", diz. "Os técnicos precisaram rever seus conceitos.” É exatamente o que o Fundo têm feito.

Em meados de fevereiro, foi divulgado documento assinado por Olivier Blanchard, economista-chefe da instituição, e um grupo de pesquisadores, que propõe a busca por metas de inflação menos rígidas: de 2% a 4% ao ano, o que permitiria a prática de juros nominais mais altos, dando espaço para manobras de política monetária, exatamente como tem sido experimentado em alguns países para aplacar os efeitos fiscais decorrentes das turbulências nos piores momentos da crise.

O trabalho de Blanchard e seus coautores defende políticas regulatórias para o capital como instrumento de política cambial. Para o Fundo, que chegou a criticar o Brasil em um relatório de 2007 em que pedia redução das intervenções cambiais, a recomendação de regulação é uma mudança e tanto. O Brasil, inclusive, já se antecipou a essa nova cartilha, ao taxar com 2% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) os recursos externos que entram no País para operações em Bolsa de Valores.

Riscos

A mudança de direção, contudo, é vista com restrições por alguns especialistas. José Luiz Rossi, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), alerta para o fato de que a crise não chegou ao fim e, por isso, não é possível estabelecer um novo modelo econômico ideal para os países. “Esta mudança foi rápida demais. Hoje é modismo defender algo mais liberal", diz Rossi. "Temos de ser mais cautelosos. Não dá para mudar de ideia desse jeito, de uma maneira precipitada, e por questões políticas.”

Ele afirma que a ajuda dos governos ao sistema financeiro provocou um estouro das contas públicas: “isso pode piorar ainda mais a crise e levar a problemas mais profundos. Não dá para dizer agora se a ajuda dos governos foi a mais acertada ou não.”

Rossi avalia que o apoio do FMI a essas medidas é resultado de pressão política, já que a maioria dos países desenvolvidos está com desequilíbrio de suas contas públicas. De acordo com ele, a tentativa hoje é encontrar um ponto de equilíbrio nesse modelo. “Com liberdade, levando em conta a globalização. Controle é ótimo, mas excessos também”, afirma.

Ele prevê ainda que, se o FMI errar em suas orientações, vai perder credibilidade. “As agências de classificação de risco não conseguiram prever a crise", diz. "O FMI também não. São instituições que já estão desgastadas e podem ficar ainda mais.”

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