A desigualdade social que hoje existe no Brasil é maior do que em 1990. Isso acontece porque apesar de os trabalhadores terem acompanhado aumento em seu salário, a participação deles na renda nacional é menor do que naquele período, segundo o estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nesta quarta-feira.

O rendimento dos trabalhadores das classes mais baixas está maior. Eles estão recebendo salários mais altos, ao mesmo tempo em que aqueles que ocupam os principais postos de trabalho tiveram redução em sua renda mensal.  A camada dos 10% mais pobres tinha, no início da década de 90, renda mensal média de R$ 67,00, e em 2007 este valor era de R$ 97,00. A renda dos 20% mais pobres também cresceu, de R$ 202,00 para R$ 236,00.

Por outro lado, o rendimento mensal médio dos 10% mais ricos diminuiu, de R$ 4.559,00 para R$ 4.114,00. O mesmo aconteceu com os 1% mais ricos: de R$ 13.604,00 que recebiam mensalmente em 1990, passaram a receber R$11.878,00

No entanto, essa desigualdade que vem diminuindo, chamada de pessoal, não é vista na participação dos trabalhadores na economia nacional. Em 1990, a participação da renda do trabalhador, chamada de participação funcional, correspondia a 45,4% da economia nacional. Porém, a partir de então, o Brasil passou por uma série de transformações que exigiram que o País adotasse políticas econômicas para enfrentar a inflação e a desvalorização do real, para depois se abrir à economia mundial.

Para o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, todas as medidas afetaram a distribuição de renda dos trabalhadores brasileiros, cuja participação de sua renda na economia nacional voltou a crescer apenas em 2004. Este fato se deve a uma combinação da expansão do emprego e da remuneração dos trabalhadores, acompanhado de um gasto público mais adequado, voltado para proteção dos trabalhadores de menor remuneração. De acordo com o relatório do instituto, em 2007 a participação funcional ocupava uma parcela de 41,7% da renda brasileira e, se o País continuar neste ritmo de crescimento, atingirá o mesmo patamar do início da década de 1990 em 2011.

Para haver uma melhora geral na distribuição da renda nacional, é necessário que a redução da desigualdade pessoal seja simultânea ao aumento da participação funcional da renda dos trabalhadores na economia nacional. Essa combinação, segundo Pochmann está acontecendo lentamente no País. A distribuição de renda no Brasil vem melhorando em um período bem recente com uma combinação de uma melhor distribuição entre a renda dos trabalhadores e uma melhor participação dos salários na renda nacional. Toda vez que aumenta os salários na renda nacional e reduz a desigualdade entre os salários, o País apresenta um sinal de redução da desigualdade. Não é possível dizer que houve melhoria na distribuição de renda quando não há esta combinação.

Diante do cenário da crise econômica global, o presidente do Ipea diz que o Brasil terá uma desaceleração econômica muito drástica nos próximos meses, e isto impedirá que se reduza a desigualdade. A redução na desigualdade de renda do trabalhador pode estar comprometida pelo que vai ocorrer no final do ano, tendo em vista a combinação de dois fatores: a desaceleração da economia resultante das decisões da elevação da taxa de juros e os efeitos da crise internacional que se abate não apenas no setor financeiro, mas nas decisões das empresas e das famílias.

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