Políticas sociais e econômicas reduzem vulnerabilidade dos produtores do semiárido ao processo de desertificação

nullA redução da vulnerabilidade dos agricultores do semiárido pode avançar pelos passos dos europeus. Há alguns anos, a produtora de calçados ecológicos francesa Veja, conhecida como a produtora dos "sneakers verdes", adquire o algodão orgânico produzido pelos agricultores da Associação de Desenvolvimento Educacional e Cultural (Adec) de Tauá (CE), estimulando a economia da região. Hoje, um dos modelos de maior sucesso da empresa é o tênis “taua”, vendido a 85 libras no Reino Unido, ou R$ 235.

O projeto envolve não apenas os franceses, mas também a prefeitura (que cedeu o espaço onde funciona a Adec) e o governo estadual (que proporciona as sementes de algodão e presta assistência técnica). Esse esforço concentrado fez produtores como Antonia de Souza Castro, de 61 anos, permanecerem na caatinga, mesmo vendo boa parte do seu solo transformado em deserto, onde só nasce hoje uma “malva veia”.

Segundo Antonia, o projeto da Adec foi-lhe apresentado com informações básicas sobre o modo de cultivo e melhor aproveitamento do solo. Hoje, ela vê parte da sua terra degradada e outra fértil, com sete anos seguidos de produção do algodão (ver vídeo). São políticas públicas como essa que melhor podem agir na redução da vulnerabilidade do povo do sertão, segundo ambientalistas.

Produtor de algodão em Tauá (CE)
Divulgação
Produtor de algodão em Tauá (CE)

Para Jesse Ribot, do Departamento de Geografia da Universidade de Illionois, é preciso tentar mitigar a degradação do solo do semiárido, mas, tanto quanto isso, é preciso levar desenvolvimento às regiões mais pobres que sofrem degradação. Ribot desenvolve, com o apoio de diversos fundos, um projeto de desenvolvimento econômico e social na região do Sahel, na África, cujo solo se assemelha ao do semiárido brasileiro. Para ele, o problema dessas pessoas, na verdade, é como elas lidam com as mudanças e como agências financiadoras podem auxiliá-las a melhorar sua condição de vida.

O acadêmico, que está no Brasil para a Icid , concorda que as discussões sobre aquecimento global e diminuição da degradação são importantes, mas, para reduzir a vulnerabilidade da população local, a maior parte do trabalho tem de ser feito na própria sociedade. Há perigos causados pelo clima e eles vão se intensificar mais, prevê ribot. "Mas eles são apenas parte do problema da vulnerabilidade.”

Ribot, um dos organizadores do Icid, explica como a atuação social pode minimizar os impactos das variações do clima e questiona: por que morreram tantas pessoas nas secas do Nordeste brasileiro nas últimas décadas, enquanto que, em seca similar, pouco se registrou de mortes no sudeste americano, em Estados como Arizona e Novo México?

Produtor de algodão em Tauá (CE)
Divulgação
Produtor de algodão em Tauá (CE)
Para Ribot, também é importante avaliar a estrutura da sociedade para redução de vulnerabilidades, tanto quanto a variação do clima. Ele dá um exemplo de como avaliar isso. Em 1970, um grande ciclone atingiu Bangladesh e cerca de 500 mil pessoas morreram. Em 1991, um furacão muito similar atingiu a mesma região e 140 mil pessoas faleceram. Mas, em 2007, outro furacão muito mais forte do que os anteriores percorreu a mesma região e foram 3.406 as vítimas fatais. A densidade populacional de Bangladesh cresceu muito nesses anos, destaca o geógrafo. "Mas os estragos e as vítimas foram reduzidos em Bangladesh devido a uma série de políticas contra desastres e mudanças de ação que emanaram da sociedade."

O trabalho de organizações não-governamentais e projetos federais ou estaduais no semiárido brasileiro, porém, costumam ocorrer de forma apenas pontual. Apenas com a elaboração do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN-Brasil), que ficou pronto em 2005. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, os custos de recuperação das áreas mais afetadas pela desertificação no Brasil é de cerca de US$ 2 bilhões para um período de 20 anos. Após a elaboração do PAN-Brasil, também Estados como o Ceará e Pernambuco promoveram os seus programas de ação estaduais.

Sentimento de culpa

Uma cartilha distribuída pelo governo cearense à população do semiárido aponta uma série de fatores que levam à desertificação das regiões cultiváveis, mas, exceto pelo desenho de um sol com chapéu de sertanejo na capa, não há indicações de que as oscilações do clima no planeta levem a essa mudança. A cartilha é um exemplo de indicação do sentimento de culpa do nordestino que vive nas regiões mais hostis do semiárido.

No texto constam que o extrativismo da madeira, o sobrepastoreio, o desmatamento desordenado, as queimadas e tantas outras interações do homem são os únicas causas da desertificação. Para Cícero “Totico” Pereira da Silva, que parece carregar esse complexo de culpa, o uso mal-planejado do trator para arar a terra foi um dos grandes culpados pela degradação do solo de Tauá (CE). “Para destruir é rapidinho, dois ou três anos, mas para recuperar, Deus sabe quanto tempo”

Antonia também coloca na conta da sua família e das vizinhas a principal culpa pela desertificação de suas terras. Para ela, a motivação principal para a degradação de parte do terreno se deve ao desmatamento que sua família promovia e à forma como plantavam, na vertical em relação à inclinação do solo.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), porém, não são os moradores locais os únicos culpados pelo processo de desertificação. Para alguns ambientalistas, eles estão mais para vítimas do que para algozes do ambiente.

E por que agir agora, com o lançamento da Década da Luta contra a Desertificação pela ONU nesta semana? Segundo a organização, há indícios científicos de que seja possível recuperar as terras degradadas, como espera a produtora Antonia, de Tauá. Em pesquisas recentes, descobriu-se melhora das condições de vida onde a terra se reabilitou e onde foi conservada. A ONU quer exatamente  construir e a acelerar, onde houver, esse refortalecimento das terras mais secas do mundo. Os nordestinos do sertão esperam que essa transformação ocorre a passadas largas e, se possível, em passo calçados por tênis feitos com o algodão produzido por eles.

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