Ceará sedia a partir de hoje conferência mundial sobre a desertificação que decorre do aquecimento global e má conservação do solo

O vento que costuma soprar mais forte em outubro começou a se manifestar já neste mês de agosto no sertão cearense. As chuvas na região de Tauá no inverno de 2010 foram mais fracas do que nos últimos anos e pouco se colheu do algodão, plantação que mais movimenta a agricultura comercial do local. Por lá, há quem diga que, pelo que choveu no inverno, a próxima estação de seca poderá ser a pior em 90 anos. Uma série de evidências indica um recado que o sertão transmite ao mundo: que lugares como Tauá, onde um terço do território está fortemente degradado, podem estar passando por um processo de desertificação.

Nesta semana, em Fortaleza, a Segunda Conferência Internacional sobre as regiões semiáridas ( Icid ), debaterá qual a relação entre a expansão dos desertos – brasileiro e de cerca de mais 100 países – e o derretimento das calotas polares e o aumento da incidência de tufões, ou seja, qual a relação com o aquecimento global. A reunião deverá contar com representantes de diversas partes do mundo, com Luc Gnacadja, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, além da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Arte iG
No evento, será lançada a Década da ONU sobre Desertos e Combate à Desertificação. Segundo a ONU, 16% da degradação do solo mundial ocorreram entre 1981 e 2003 e 2,1 bilhões de pessoas no mundo vivem nas regiões secas. No Brasil, segundo o primeiro levantamento feito no bioma, neste ano, 45% da caatinga já foi devastada. Conforme esse estudo, o Brasil perde o equivalente a duas cidades de São Paulo de caatinga por ano. São mais de 30 milhões de brasileiros afetados por esse processo.

A desertificação ocorre por três diferentes fatores, segundo as Nações Unidas: aquecimento global, agricultura não-sustentável e má gestão de recursos hídricos. Sobre o aquecimento do planeta, os produtores rurais do sertão têm menos ingerência do que as grandes indústrias mundiais, mas, nos outros fatores que estão acessíveis a eles, a atuação local ganhou cada vez mais peso nas últimas décadas, passando a ser necessária para a sobrevivência. Muitos produtores aprenderam que precisam tratar bem o solo onde vivem, para que possam aproveitá-lo ano após ano.

nullAfonso Xavier Santana, de 69 anos, já plantava nos tempos em que julgava o solo mais forte e resistente. Morador de Carrapateiras, distrito de Tauá, Xavier já queimou muita terra para plantar milho e feijão no baixio que os açudes vão deixando conforme o inverno passa e o período de seca chega. Mas, ao longo dos anos, viu suas terras se tornarem inférteis e o cascalho aflorar no chão, como sinal de que foi perdida a camada arável do solo.

No fim dos anos 80, aprendeu que desmatar indistintamente e queimar a terra pode torná-la muito boa no primeiro, segundo e terceiro anos após a sua devastação, mas, depois disso, ela fica estéril por décadas. Descobriu como usar a caatinga ao seu favor, cultivando nas margens do açude próximo, para que ele não seque e seus cabritos não invadam a margem, e usando os galhos das árvores nativas para conter a água das chuvas e adubar o solo. Desse modo, porém, ocorre o inverso de antes: nos três primeiros anos, a terra ainda não fica adaptada ao plantio. É preciso, portanto, boa paciência e muito trabalho com enxada na mão para fazer o solo render frutos depois disso.

“É uma pena que eu tenha descoberto isso tão velho, sem muita força nem muito tempo para ver recuperar a terra que perdi e para preparar novas”, diz o senhor Xavier, que recebeu de volta para tocar a sua terra um dos oito filhos que haviam deixado o sertão em direção às grandes cidades.

Xavier é um exemplo de mudança de comportamento que atinge muitos produtores do semiárido, mas é também testemunha de que essa nova cultura encontra dificuldades em se disseminar na região. Em geral, há produtores que resistem às novas técnicas agrícolas ecológicas, tendo em vista a sobrevivência de antepassados que, no mesmo solo, plantaram à moda antiga por décadas, sem grandes problemas com a temporada seguinte.

Ali mesmo, do outro lado do açude que beira a propriedade do senhor Xavier é possível ver a margem degradada, sem praticamente nenhuma vegetação. “O vizinho ‘brocava’, queimava e desmatava todo ano, até que eu disse para ele conservar a margem para o bem de todos, mas pro lado de lá o poço já vai secando”, mostra ele (ver vídeo). O desmatamento das margens leva ao assoreamento dos açudes e rios, reduzindo sua profundidade e levando-os a secar.

Terra comprometida

Situação do solo no município de Tauá (CE) - por hectares

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Fonte: Projeto Mata Branca

“Ninguém sabe por aqui, mas eu acho que essa situação pode ser uma resposta da Natureza”, diz João Alves de Oliveira, de 56 anos, da região de Inhamuns. Ele viu sua plantação de algodão e sua apicultura minguarem neste ano. No ano passado, fez quatro coletas de mel, mas, em 2010, colheu apenas uma vez de seu apiário. Segundo mostra, hoje não nascem mais árvores em torno de sua propriedade, apenas arbustos. “O povo continua cortando, porque aqui não tem Ibama, não tem unidade de conservação, nem nada que nos impeça disso.”

Colocada em segundo plano em relação à Amazônia e ao cerrado, apenas 7% do território da caatinga está sob áreas de conservação. Apenas na semana passada. o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) assinaram acordo para criar o Sistema de Alerta Precoce de Secas e Desertificação (SAP).

Com esse sistema, será possível constatar a evolução da flora do semiárido ano a ano, podendo-se avaliar se, de fato, há avanço acelerado recente no processo de desertificação, conforme atestam as pessoas que lá vivem. Segundo o Ministério, as informações vão orientar a formulação de políticas públicas, em conjunto com a sociedade, para enfrentar a degradação das terras nas regiões semiáridas.

Atualmente, o governo federal atua também para montar o Fundo Caatinga, cuja gestão ficará a cargo do Banco do Nordeste. O fundo, ainda sem previsão de orçamento, unirá financiamentos para combater o avanço da desertificação e promover o uso sustentável do bioma da caatinga. O fundo foi elaborado conforme estudo do Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN-Brasil), que indica que a região semiárida brasileira poderá perder um terço de sua economia até 2100, caso a temperatura média do planeta suba mais de 2 graus até lá, conforme previsto.

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