Uma declaração polêmica do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, pode fazer com que a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) que começa nesta segunda-feira não seja produtiva para o Brasil. O ministro acusou os países ricos de fazerem uma ¿campanha de desinformação¿ sobre o estado da negociação agrícola da Rodada de Doha, e citou o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels. Estados Unidos e União Européia reagiram mal à declaração de Amorim.

Amorim se desculpou, no domingo, diante da polêmica, mas ainda assim colhe reações negativas. Os Estados Unidos e a União Européia bombardearam a declaração de Amorim à véspera das negociações cruciais de Doha. Para o ministro, porém, assim como para outros diplomatas brasileiros, a reação pode ser uma manipulação para enfraquecê-lo.

Amorim está habituado a ser centro das atenções nas negociações comerciais, mas desta vez provavelmente gostaria de estar longe das luzes. Ele fez a citação numa coletiva na Organização Mundial do Comércio (OMC), quando procurava "acabar" com o "mito" de que a negociação agrícola avançou e o problema agora é a negociação industrial.

A menção a Goebbels passou a ter impacto quando a representante americana, Susan Schwab, filha de judeus sobreviventes do Holocausto, reagiu, ao ser indagada por uma agência noticiosa. Ela disse, por meio de seu porta-voz, que "tem um tremendo respeito pelo Brasil e pelo papel de liderança que pode ter e por isso os comentários foram tão infelizes" . Ontem, a União Européia entrou na polêmica, com um funcionário qualificando a citação de "altamente lamentável" . Já o comissário de Comércio, Peter Mandelson, comentou: "Deixemos Goebbels de lado".

Em círculos comerciais, a reação dominante foi de que desta vez Amorim, talentoso nas frases de efeito, pode ter contribuído para um clima pesado nas discussões entre os ministros. Schwab, que se crispa com facilidade, nesse tipo de ambiente acaba reagindo sempre dizendo "não" na negociação. No fim da tarde, Amorim fez várias indiretas sobre sua própria situação. "Tenho que tomar cuidado com minhas palavras", disse, ao explicar uma questão levantada pelo diretor-geral da OMC.

Indagado por uma jornalista se pediu perdão pela referência a Goebbels e à tática dos países ricos, ele retrucou: "Eu disse 'I'm sorry' (sinto muito) se feri sentimentos. Não foi minha intenção. Mas tenho que dizer que comecei meus comentários desqualificando o autor. Talvez se eu tivesse dito o mesmo, sem mencionar o autor, o que seria uma espécie de plágio, não haveria reação. O fato é que há distorção depois de distorção (dos países ricos)..."

Perguntado se mantinha a frase, Amorim disse, tentando minimizar o impacto: "Seja lá qual a frase, dei como um exemplo. O que mantenho é o seguinte: repetir uma distorção faz as pessoas acreditarem que ela é uma verdade". Foi nesse ambiente que o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, aproveitou o jantar oferecido aos ministros, nos arredores de Genebra, para passar duas mensagens. Pediu uma trégua no jogo de acusações e que realmente negociem entre si, para salvar Doha.

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