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Davos faz chamado à cooperação contra crise

O Fórum Econômico Mundial de 2009, que se encerrou ontem, em Davos, começou em tons de quase desespero com a virulência da crise financeira e econômica, e terminou com um chamado à cooperação internacional como forma de encarar os tempos dificílimos à frente. Se na área de comércio internacional permanece o impasse em relação à Rodada Doha, agravado agora pela tentação de cada país de restringir importações para tentar proteger os produtores domésticos, a reunião de Davos mostrou que há, no mínimo, uma clara consciência da parte das lideranças econômicas e políticas de que é preciso agir de forma rápida, ambiciosa e ampla para tentar conter a crise.

Agência Estado |

O primeiro grande teste dessa renovada aposta na cooperação multilateral será a reunião de chefes de governo do G-20, em 2 de abril em Londres. Ao contrário da primeira cúpula do G-20, realizada em novembro em Washington, e esvaziada por ter como anfitrião um presidente George W. Bush em melancólico final de mandato, a reunião de Londres será vitaminada pela presença do carismático novo presidente americano, Barack Obama, no esplendor da força política do início de mandato. O G-20, que inclui o Brasil, reúne as principais economias desenvolvidas e emergentes, responsáveis por cerca de 90% do PIB global.

Ainda em abril, na esteira do G-20, o Fórum Econômico Mundial realiza uma reunião regional no Rio de Janeiro, que será beneficiada pela alta voltagem do momento econômico e político global. O Fórum do Rio pode ser uma ótima oportunidade para o Brasil reforçar a sua posição de importante economia emergente que atravessa a crise até agora de maneira relativamente menos catastrófica do que a da média dos países.

Um tema que deve ter itens razoavelmente bem preparados para a tomada de decisão na reunião do G-20 é o da regulação financeira. Segundo o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, que participou do Fórum em Davos, uma proposta que deve chegar à mesa dos chefes de governo é a de se criar um colegiado mundial de reguladores, uma instituição de base mais permanente, "onde as informações possam ser trocadas a cada dia, e não a cada mês".

Na área fiscal, a orientação de se promover o maior número possível de pacotes de estímulo deve ser mantida na reunião do G-20. Até o momento, os planos de impulso fiscal do G-20 já somam algo como 1,5% a 2% do PIB dos países do grupo. Uma questão que certamente será abordada é a contaminação dos países pobres e emergentes pela crise iniciada nos países ricos, e o que fazer para contê-la. Há um consenso de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) deve ser maciçamente fortalecido em sua capacidade de empréstimo.

Os movimentos naquele sentido até agora, porém, são tímidos. John Lipsky, vice-diretor-gerente do FMI disse que gostaria que o Fundo pelo menos dobrasse a sua capacidade atual de empréstimo, de US$ 250 bilhões. Ele lembrou que o Japão já se propôs a emprestar US$ 100 bilhões ao FMI, e que assim faltaria equacionar os restantes US$ 150 bilhões. Numa espécie de painel conclusivo sobre o futuro da economia global realizado no sábado, Montek Ahluwalia, vice-chairman da Comissão de Planejamento da Índia, deixou claro que os US$ 250 bilhões para o FMI propostos por Lipsky são muito modestos: "As reservas da Índia são mais do que isso", alfinetou Montek.

O economista Martin Wolf, colunista do Financial Times, lembrou no mesmo debate que, exatamente por não confiarem nem no cacife nem na disposição do FMI de ser um emprestador em momentos de trava no crédito global, é que os emergentes em conjunto acumularam trilhões de dólares de reservas. Wolf vê essa questão como causa dos atuais desequilíbrios da economia global, já que o excesso de poupança dos emergentes, para acumular reservas, é canalizado para os ricos, onde comprime e juros e gera bolhas especulativas.

Davos 2009 teve um tom mais sóbrio que o habitual, com menos celebridades ligadas ao showbiz. Não houve a presença nem mesmo de Bono, da banda irlandesa U2, que compareceu por vários anos seguidos.

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