"Quem aí viu um dólar de perto?" A frase, em tom de desafio, foi pronunciada pelo presidente Juan Domingo Perón em 1953 perante milhares de pessoas na Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, o palácio presidencial. Em pleno pós-guerra, a moeda americana começava a despertar o interesse dos argentinos, que desconfiavam dos instáveis pesos e da economia local, marcada por um persistente ciclo de altos e baixos.

"Quem aí viu um dólar de perto?" A frase, em tom de desafio, foi pronunciada pelo presidente Juan Domingo Perón em 1953 perante milhares de pessoas na Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, o palácio presidencial. Em pleno pós-guerra, a moeda americana começava a despertar o interesse dos argentinos, que desconfiavam dos instáveis pesos e da economia local, marcada por um persistente ciclo de altos e baixos. Passados 57 anos do desafio do caudilho que fundou o Partido Justicialista (Peronista), os argentinos são atualmente o segundo povo no mundo a ter mais dólares em suas mãos, após, obviamente, os americanos. Em média, cada argentino guarda US$ 1.300. Os russos, são os seguintes no ranking, com US$ 550 em média per capita. Desconfiança. "O fascínio dos argentinos com o dólar não possui paralelos", explicou ao Estado um doleiro, que pediu para não ser identificado. Ele é filho de uma doleira aposentada, cujas tias-avós, nos anos 50 e 60, revendiam libras e francos. "Com os governos que temos, a desconfiança sobre o peso é mais do que justificada", afirma do alto de sua experiência própria e familiar. Depois, ironiza: "o próprio (ex-presidente) Néstor Kirchner, marido da presidente (Cristina Kirchner) não confia na política econômica da esposa, pois investe em dólares! E eles dizem que são nacionalistas..." O anônimo doleiro referia-se ao recente escândalo causado pela denúncia de que Kirchner comprou em setembro de 2008 divisas pelo valor de US$ 2 milhões para comprar ações de um hotel (embora os analistas e a oposição indiquem que tratou-se de uma compra de dólares para especulação, já que foi beneficiado com a gradual desvalorização do peso). Além disso, segundo os dados da declaração de bens dos Kirchners, o casal possuía, em 2008, mais de 60% de suas aplicações financeiras na moeda do denominado "império ianque", tal como os aliados da presidente argentina costumam denominar os EUA. Crises. Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nueva Mayoría, disse que o "fascínio" com o dólar "é a consequência das sucessivas crises econômicas pelas quais o país passou nos últimos 65 anos". Segundo ele, ocorreram treze crises econômicas em 60 anos, "incluindo a de 2009, quando o PIB caiu 3% e o desemprego real chegou a dois dígitos". O cientista político Carlos Fara disse que existe uma questão cultural. "A Argentina nunca foi caracterizada por ter disciplina fiscal e uma política monetária prudente." Isso, segundo Fara, gera um clima de temores periódicos: "se existe instabilidade, as pessoas correm na direção do dólar."
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