BRASÍLIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, o vice, Cezar Peluso, e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, pediram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva providências imediatas para pôr fim aos abusos cometidos pelos órgãos federais de investigação - a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), mas não quiseram comentar a conversa porque aguardavam medidas prometidas por Lula, anunciadas à noite. Eles relataram a Lula que a descoberta de escutas no telefone de Gilmar Mendes não foi um episódio isolado.

As suspeitas de interceptações telefônicas no STF se tornaram sistêmicas, desde o ano passado, quando o tribunal recebeu mais inquéritos da PF para relatar. Os ministros têm determinado varreduras em seus gabinetes por causa das constantes suspeitas de grampos. Eles disseram que não é possível trabalhar sob o estigma de grampos.

Depois do encontro com o presidente Lula, dez dos onze ministros do STF se reuniram, na tarde de ontem, para discutir um posicionamento unificado da Corte. O encontro, convocado às pressas depois da descoberta, na sexta-feira, de gravação de conversa entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), foi totalmente fechado. Não foi permitida a entrada de assessores e nem de garçons para servir café.

No fim da reunião, a assessoria do tribunal divulgou a seguinte nota: O STF, reunido em conselho, foi informado por seu ministro-presidente (Mendes) do teor do encontro mantido, nesta data, com o excelentíssimo senhor presidente da República e decidiu aguardar as providências exigidas pela gravidade dos fatos. Ou seja, os ministros reforçaram, internamente, a posição que já havia sido manifestada ao presidente Lula de que eram necessárias providências imediatas para dar um basta às suspeitas de escutas na Corte. Ficaram, então, à espera do anúncio de medidas pelo presidente.

O encontro entre os ministros durou pouco mais de uma hora. Apenas a ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha não participou, pois não conseguiu retornar do interior de Minas Gerais a tempo. Gilmar Mendes deixou de fazer viagem à Coréia do Sul para convocar a reunião de conselho do STF - algo bastante inusitado no cotidiano da Corte. Os ministros se reúnem em sessões plenárias, realizadas às quartas e quinta-feiras, nas turmas, às terças, e em reuniões administrativas. Todos esses encontros são abertos ao público. Já o encontro de ontem foi totalmente fechado. E o Supremo saiu coeso do episódio. Os ministros concluíram que caberia ao presidente da República tomar uma atitude, dar uma resposta dura.

Duas horas depois da reunião no STF, o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, telefonou a Gilmar Mendes para avisar que a cúpula da Abin estava sendo afastada. O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, afirmou que a investigação das escutas telefônicas é difícil de ser realizada, mas determinou a abertura de inquérito à Polícia Federal.

(Juliano Basile | Valor Econômico)

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