O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu ontem da presidente argentina, Cristina Kirchner, a promessa de normalizar neste ano as exportações de trigo para o Brasil. A mensagem foi recebida com alívio e respondida com o compromisso de Lula de que o Brasil manterá as vendas de energia elétrica para a Argentina, especialmente neste período de inverno.

"Não deixaremos que o povo argentino passe frio por causa de energia", afirmou ele à imprensa, ao final da 35ª Reunião de Cúpula do Mercosul.

Entretanto, o próprio Lula informou que Cristina se prontificou a liberar de imediato apenas 500 mil toneladas. Essa posição não chega a tranqüilizar os moinhos e os consumidores brasileiros. Por normalização, a Argentina entende o envio, a conta-gotas, de um total de 4,1 milhões de toneladas de trigo neste ano. Em 2007, essas importações alcançaram 5,6 milhões de toneladas.

A conversa entre os dois presidentes teve um alto teor político, avaliou o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, que ouviu um rápido relato de Lula. Ambos trataram especialmente da visita oficial do brasileiro à Argentina, no dia 4 de julho, que será acompanhado por uma missão de empresários dispostos a investir no país.

O Palácio do Planalto e a Casa Rosada pretendem fazer dessa visita um sinal claro de apoio político do Brasil à Argentina, cujo governo atravessa uma crise econômica capaz de desestabilizar as instituições.

Nessa visita, Lula e Cristina deverão anunciar o novo cronograma de construção da hidrelétrica binacional de Garabi, na fronteira entre os dois países, no Rio Uruguai, e dar início ao funcionamento do mecanismo de fechamento de contratos de câmbio do comércio bilateral em moedas locais, sem a intermediação do dólar americano.

Até esse evento, já estará eliminada uma das divergências atuais entre Brasil e Argentina - a resistência de Buenos Aires a conciliar-se com Brasília nas negociações sobre a abertura dos mercados industriais na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). O acerto é importante porque o destino de Doha terá de ser definido até o fim de julho. No dia 14, antes da reunião de ministros de países mais influentes da OMC, negociadores dos dois países deverão eliminar as suas diferenças.

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