Montadoras europeias encaram futuro incerto

Número de carros novos na União Europeia cai ano a ano desde 2007 e indústrias devem fazer ajustes fortes

The New York Times - Jack Ewing |

Corentin Fohlen/International Herald Tribune
Motor 1.4 TB MultiAir 170 no show room da Alfa Romeo, no salão de Paris: apresentações mais modestas, como as vendas do setor

No Salão do Automóvel de Paris, os mais otimistas acreditavam que as vendas de carros estavam tão ruins que não poderiam piorar.

Entretanto, mesmo que as vendas se recuperem um pouco em 2013, conforme algumas pessoas preveem, os executivos do setor dizem que levará anos até voltarem aos níveis de 2007, quando as vendas chegaram a um pico, antes da crise financeira.

O número de novos carros de passeio na União Europeia tem diminuído todos os anos, de lá para cá, e já caiu 7% este ano. Segundo alguns executivos, a conclusão óbvia é de que o setor não está passando por uma crise, mas que está mudando permanentemente e as montadoras precisam se adaptar mais rapidamente.

"No futuro próximo, será impossível voltar aos números do início dos anos 2000", afirmou Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari e membro do conselho diretivo da Fiat. "Todas as montadoras precisarão tomar cuidado com isso."

A apresentação de novos modelos em Paris reflete o atual estado do mercado, pois são voltados às pessoas ricas, que ainda têm dinheiro para gastar, ou ao grande público, que tenta se adaptar à queda da renda. Do lado mais luxuoso, a Jaguar oferece seu primeiro esportivo de dois lugares desde os anos 1970, todo feito de alumínio, que será vendido nos Estados Unidos e no resto do mundo no segundo semestre do ano que vem a partir de US$ 70 mil.

Já do lado mais popular estão o novo Clio, da Renault, e o Adam, da Opel, que buscam oferecer mais estilo para quem tem a renda apertada.

Entretanto, mesmo que esses modelos sejam sucessos de vendas, as montadoras precisaram cortar radicalmente seus custos – um processo que acaba de começar. Sergio Marchionne, executivo chefe da Fiat e da Chrysler, afirmou que as fábricas italianas estão operando a 50% da capacidade, muito abaixo dos níveis necessários para que a empresa seja lucrativa.

Marchionne está tentando contrariar a imagem de que os executivos do setor automotivo não têm escrúpulos na hora de cortar vagas e afirmou que perde o sono pensando nos empregos dos funcionários da Fiat.

"Todos nós entendemos que muitas vidas são afetadas pelas decisões que tomamos", afirmou em uma coletiva de imprensa.

Marchionne pediu que os líderes da União Europeia negociem cortes no setor, para que o golpe seja dividido por toda a região, assim como fizeram com a indústria siderúrgica nos anos 1990. Marchionne afirmou que os líderes políticos são favoráveis ao fechamento de fábricas em outros países.

Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari. Foto: Corentin Fohlen/International Herald TribuneSergio Marchionne, presidente da Fiat-Chrysler, e John Elkann, presidente do conselho da Fiat. Foto: Corentin Fohlen/International Herald TribuneNovo Fiat Panda 4X4 é apresentado no Salão de Paris. Foto: Corentin Fohlen/International Herald TribuneMotor 1.4 TB MultiAir 170 no show room da Alfa Romeo, no salão do automóvel de Paris: apresentações mais modestas, como as vendas do setor. Foto: Corentin Fohlen/International Herald Tribune


"Esse comportamento tem sido dominante ao longo dos anos", afirmou Marchionne. "Se esse problema tivesse sido abordado de forma coletiva anos atrás, agora ele seria muito menor do que é."

Entre os executivos do setor automotivo, tem aumentado a frustração com os líderes políticos que, segundo eles, demoraram demais para encontrar uma solução para a crise da dívida na zona do euro e atrapalharam os planos de cortes de custos das montadoras.

"Somos obrigados a lidar com o excesso de produção; e os políticos precisam entender isso", afirmou Wolfgang G. Schneider, vice-presidente de relações governamentais, ambientais e legais da Ford na Europa.

Ao mesmo tempo, os líderes precisam fazer mais para ganhar confiança nos países afetados, afirmou Schneider. A Ford vende menos carros na Espanha do que na Turquia, pois os consumidores espanhóis temem o futuro e não estão dispostos a fazer grandes compras.

"As coisas estão caminhando na direção certa, mas muito devagar", afirmou a respeito das medidas para estabilizar a zona do euro.

Entre as maiores montadoras, a Volkswagen ainda é uma exceção. "Apesar da crise, fomos capazes de manter nossos objetivos para 2012", afirmou o executivo chefe Martin Winterkorn, em um evento da empresa.

A Volkswagen é, de longe, a maior montadora da Europa e se beneficiou com o fato de que a Alemanha foi pouco afetada pela crise, além da grande presença em mercados emergentes que crescem rapidamente, como a China e o Brasil.

Ainda assim, a empresa parecia estar se esforçando para não demonstrar sua alegria com a crise que afeta suas concorrentes. Durante o evento, ocorreram algumas apresentações exageradas, como bailarinas em roupas de látex com o rosto coberto por viseiras. A Volkswagen mostrou o design da nova versão do Panamera, uma espécie de perua familiar de alta performance feita pela Porsche.

Além disso, a montadora apresentou a nova versão do Golf, uma exceção aos carros fabricados para públicos de alta ou baixa renda.

Entretanto, a Volkswagen também aproveitou para falar sobre suas iniciativas para promover o trabalho dos jovens nos países europeus afetados pela crise, trazendo jovens trainees da Espanha e de Portugal ao palco para falar sobre como estavam contentes com seu trabalho na empresa.

"Estamos fazendo tudo que podemos para garantir que a indústria tenha um lugar no futuro da Europa", afirmou Winterkorn.

Apesar das péssimas tendências na Europa, executivos da indústria automotiva afirmam estar otimistas com o futuro do setor no resto do mundo. As vendas continuam a subir em países como o Brasil e a Rússia, aliviando um pouco a situação europeia. As empresas mais afetadas foram a OPEL e a PSA Peugeot Citroën, que ainda dependem muito da Europa.

"Quando analisamos o setor do ponto de vista global, as vendas não estão caindo", afirmou Jerome Stoll, vice-presidente de vendas e marketing da Renault. Ainda assim, os mercados estrangeiros não são suficientes para compensar as perdas na Europa, que só estará recuperada no fim da década, afirmou.

A Renault não planeja fechar suas fábricas na França, afirmou Stoll, mas o executivo pediu uma legislação que permitisse um maior ajuste na capacidade produtiva – por meio da transferência de funcionários, por exemplo. "Precisamos ser mais flexíveis", afirmou.

Até mesmo a Ferrari foi afetada pela crise, ainda que suas vendas continuem a subir. As vendas na Itália caíram drasticamente, em parte porque os compradores temem que possuir carros caros os tornem alvos fáceis dos fiscais de impostos.

A Ferrari continua a vender bem no resto do mundo, depois de ter expandido sua linha de produtos para satisfazer os novos mercados asiáticos, segundo Montezemolo. A China se tornou o terceiro maior mercado da Ferrari, atrás da Alemanha e dos Estados Unidos.

"Graças à inovação, a novos produtos e à presença global", afirmou, "ainda não sentimos os efeitos da crise".

Leia tudo sobre: montadorasvolkswagenfiatferrariindústria automotiva

Notícias Relacionadas


    Mais destaques

    Destaques da home iG