Mais um verão de poucas esperanças para uma Europa mais próxima da recessão
PIB, desemprego, bolsas, e altíssimos juros pagos a quem se expõe aos países europeus mostram que a crise não dá tregua na região, que pode entrar em recessão esse ano
Já era uma tradição na Espanha. Até pouco tempo era praticamente impossível encontrar o primeiro escalão do governo espanhol na quente e abafada Madri no mês de agosto. Todos os anos, ministros, secretários e líderes políticos de todas as cores deixam a capital espanhola nessa época do em direção, principalmente, às mais que animadas praias do sul do país.
Mas desde que o mundo desenvolvido foi chacoalhado pela crise dos subprimes americanos, a quebra do banco Lehmann Brothers e pela crise financeira que se seguiu, as coisas têm sido diferentes por lá. Este já é o terceiro ano seguido em que os governantes não se afastam de seus gabinetes. Estão todos trabalhando - ou ao menos fazendo cena - em busca de uma solução para a crise econômica do país, que se agrava em um ritmo quase semanal.
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A suspensão das férias de verão dos políticos espanhóis é apenas um pequeno, quase ínfimo, porém emblemático, exemplo de como a crise europeia que vem se arrastando ao longo dos últimos meses. A cada trimestre, o número de desempregados cresce e as ações listadas nas bolsas perdem valor. A saída encontrada até o momento sempre passa pela austeridade, que, por si só, posterga ainda mais a recuperação econômica.
Segundo o Eurostat, a agência de estaística da União Europeia, cerca de 25 milhões de pessoas estão desempregadas em toda a União Europeia, dois milhões a mais do que no ano passado, número que resultou, em junho deste ano, numa taxa de desemprego de 10,4% da população ativa. Sem emprego, diminui o apetite da população para comprar, o que afeta diretamente o consumo.
No primeiro trimestre deste ano, a região só não entrou em recessão porque a Alemanha equilibrou o resultado do grupo com um crescimento de 0,5%. Com isso, a União Europeia ficou estagnada de janeiro a março, com crescimento nulo, depois de uma contração de 0,3% no último trimestre do ano passado.
A França, estagnada (0%) também balanceou as contas e ajudou a anular as amargas contrações das demais. Os destaques ficaram com a Itália (-0,8%), Espanha (-0,3%), Portugal (-0,1%) e Grécia (-6,2%), todos tecnicamente em recessão, após dois ou mais trimestres seguidos de redução da economia.
Os países que já divulgaram os números do segundo trimestre não melhram o quadro. O resultado da economia italiana, que saiu na última terça-feira, foi uma contração de 0,7%, mesmo número que o Reino Unido já divulgou há algumas semanas. A economia belga ficou 0,6% menor de abril a junho, enquanto a espanhola diminuiu 0,4%.
A bola da vez continua sendo a Espanha. Com a crise se aprofundando, faz bem o primeiro-ministro Mariano Rajoy e seus ministros não irem à praia. Por conta da desconfiança do mercado de que a Espanha seja a próxima a ter que ser regatada pela União Europeia - como já foram Irlanda, Grécia e Portugal - os juros chegaram a 7,75% para quem comprou títulos do país no ultimo leilão, o que evidencia que a situação é alarmante.
A estratégia de Rajoy tem sido, como sempre, apertar os cintos e cortar custos. Mas a estratégia não tem dado certo. A própria diretora do Fundo Monetário Internacional, a francesa Christine Lagarde, recentemente admitiu isso. “A Espanha está fazendo o que recomendamos. Mas não está funcionando”, afirmou, justificando a decisão do fundo de descartar um resgate ao país.
De fato, é difícil funcionar. A Espanha tem uma taxa de desemprego de 24,6% da população ativa - e de mais de 53% entre os jovens – e está tendo que tomar diversas medidas de austeridade.
A Europa ainda não entrou oficialmente em recessão - dois trimestres seguidos de PIB negativo - porque a forte Alemanha registrou crescimento de 0,5% no primeiro trimestre. Mas o país que tem sido a locomotiva econômica da Europa não tem escapado das notícias ruins.
A até então poderosa indústria alemã, que vinha se mantendo como exemplo da região, se contraiu em julho no maior ritmo em mais de três anos. O dado saiu no mesmo dia em que a agência de risco Moody´s disse que o país pode perder sua classificação AAA. Segundo os representantes do setor industrial, o ambiente global incerto impede clientes de se comprometerem com novas compras e contratos. Como 60% das exportações alemãs vão para os países vizinhos, natural que o país sofresse, mais cedo ou mais tarde, e ficasse mais retraído.
Além do crescimento econômico abalado e do desemprego em alta, há uma série de outros números que já nos avisam de que os governantes europeus – não só os espanhois – devem ficar muito mais tempo sem suas férias de verão.
No Reino Unido, que já não consegue mais se esconder por trás dos Jogos Olímpicos – a escassez de turistas no evento endossa o quadro ruim –, o dado econômico mais atual é preocupante. Na sexta-feira, o instituto Markit mostrou que o setor de serviços encolheu para o nível mais baixo em 19 meses, mostrando que a economia – afetada pelos duros ajustes fiscais - pode ter dificuldade para se recuperar da recessão no terceiro trimestre. Os EUA, seu grande parceiro comercial e que poderiam puxar suas vendas, estão totalmente debilitados.
Na França, não é diferente, e as feridas do país estão ficando mais evidentes. Um dos sinais disso é a indústria automobilística. No mês passado, a Peugeot PSA confirmou a demissão de oito mil funcionários, como parte de seu plano para brecar perdas crescentes.
O setor automotivo, aliás, se contraiu 7% em toda a Europa no primeiro semestre deste ano, segundo a associação de fabricantes europeia (EAMA). Daqui para frente, a expectativa é de piora, e a previsão anual de vendas de veículos caiu 20% em relação ao volume de 2007, quando a crise econômica global começou a pesar sobre as montadoras.
Outro indício da piora da economia europeia são as taxas de juros dos títulos soberanos dos países. Atualmente, os credores não estão pedindo pouco. A Espanha teve que aceitar se comprometer com uma remuneração de 7,75% para quem comprou seus papéis com vencimento em dez anos no último leilão. A Itália, com 7%. O nível é o mesmo que que obrigou Grécia, Portugal e Irlanda a parar de colocar suas dívidas no mercado, já que o custo financeiro tornava impossível honrar o compromisso. Hoje, o prêmio a quem compra um título grego no mercado é de 27% ao ano.
O comportamento das bolsas também não traz alento algum. O principal índice espanhol despenca 29% neste ano, até 25 de julho, enquanto o de Atenas perde 21%. O de Lisboa, não diferentemente, leva um tombo de 19%, e o de Milão desaba 17%. A bolsa de Frankfurt se mantém positiva, mas Paris e Londres também estão piores agora do que no final do ano passado. E a confiança do investidor da zona do euro caiu em agosto pelo quinto mês seguido, chegando à menor pontuação em mais de três anos, segundo a empresa de pesquusas Sentix.
“Assim, quando olhamos todos os principais indicadores simultaneamente, só se pode afirmar que a crise está piorando,” diz Simão Silber, professor doutor de Economia na FEA/USP. Além disso, os programas de austeridade que os países em recessão tiveram que adotar indicam que a contração das economias deve continuar por mais tempo.
Na última semana, Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), deixou claro que está avaliando medidas não convencionais para buscar soluções para a região. Mas os países europeus têm que reforçar o controle de suas contas, o que exige mais austeridade e união política. E foi também isso que Mario Draghi pediu em troca para os países que querem ter seus títulos comprados pelo BCE. Em discurso recente, o italiano disse que cada político precisará primeiro se organizar para aceitar condições severas, para depois pedirem ajuda. Ao menos os governantes europeus têm muito a discutir. Se não houver solução, ao menos a busca dela ajuda a justificar a perda de suas férias e, com isso, o rompimento de uma tradição.
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