Para muitos na Grécia, austeridade é uma escolha falsa

Número crescente de gregos vem rejeitando as duras medidas de equilíbrio impostas pela Europa, embora defendam a permanência do país na zona do euro

The New York Times |

Durante os últimos meses, políticos tradicionais da Grécia e seus financiadores no norte da Europa vêm ameaçando os cidadãos do país com uma proposta sem grandes alternativas: sofrer a dor em curto prazo dos cortes públicos, ou aceitar a agonia em longo prazo, para não falar na desonra, da vida fora do euro.

Mas agora, enquanto a Grécia enfrenta mais um ano com sua economia encolhendo 6% e o desemprego atingindo 21,7% em fevereiro, um número crescente de gregos vem rejeitando esse ultimato como uma falsa escolha.

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Giorg­os Liats­os, dono de um café de Atenas, viu seu ganho cair de 600 para 80 euros por dia. Para ele, a Grécia não deve deixar o euro e deve rejeitar imposições da Europa
Em vez disso, eles argumentam que podem ter as duas coisas – permanecendo no euro e recusando as duras medidas de equilíbrio orçamentário que a Europa exigiu em troca do dinheiro necessário para manter a Grécia solvente.

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Essa foi, pelo menos, a mensagem após as eleições de 6 de maio, onde os dois partidos dominantes – que haviam assinado os termos do resgate da Grécia, de 130 bilhões de euros – levaram uma surra histórica.

Quem emergiu como o segundo partido mais popular do país foi o Syriza, uma coligação de partidos de esquerda que prometeu manter a Grécia no euro e, entre outras coisas, aumentar os salários, suspender as demissões do setor público e repudiar a dívida da Grécia.

Para os guardiões da união monetária na Europa – sem falar no establishment político grego –, esse é o mais perigoso dos conceitos.

O temor não é que a plataforma do Syriza se transforme em política. Conforme esperado, seu líder, Alexis Tsipras, fracassou em sua tentativa de formar um governo após as eleições, assim como o líder do partido socialista, Evangelos Venizelos, na mesma semana. Esses esforços seguiram sem sucesso, e a Grécia parecia pronta para voltar às urnas em junho.

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O verdadeiro temor é que os gregos estejam começando a sentir que não precisam acatar as condições da Europa. Pois se os gregos aceitarem a existência de um caminho mais fácil para a recuperação, talvez os irlandeses, portugueses, espanhóis e italianos também possam chegar a uma conclusão parecida.

É por isso que o ministro do exterior alemão declarou, recentemente, que a Grécia deve avançar com os cortes acordados – dramáticos 5% de seu produto interno bruto – ou não receberá mais dinheiro de resgate. Analistas estimaram que a Grécia ainda possui cerca de 2 bilhões de euros em caixa, o que permitiria o funcionamento do governo até final de julho ou agosto. Sem a próxima parcela de resgate, de aproximadamente 31 bilhões de euros, o país entraria rapidamente em moratória e acabaria expulso da união monetária.

Mas o que é senso comum em Bruxelas, Berlim e nos gabinetes governamentais de Atenas pode não ser para os eleitores da Grécia, cada vez mais desiludidos.

"Eles estão blefando – você sabe quanto custaria para a Europa se nós saíssemos do euro?", afirmou Giorgos Liatsos, cuspindo nervosamente as palavras enquanto fumava cigarros em seu pequeno café no centro de Atenas. Liatsos votou no Syriza, e acredita que o caminho para a Grécia é permanecer no euro e rejeitar os termos da Europa.

"No fim das contas, Europa é uma palavra grega", concluiu ele.

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Como a maioria dos gregos que apoiaram o Syriza, Liatsos está votando com a carteira – que, segundo ele, levou uma surra. Dois anos atrás ele fazia 600 euros por dia; hoje esse valor foi reduzido a 80 ou 100 euros nos dias bons.

Gregos de todas as linhas políticas apontam para a luta de pessoas como Liatsos para exigir que as rígidas condições do pacote de resgate sejam aliviadas.

Por enquanto, a Europa e o Fundo Monetário Internacional precisam esperar a formação de um governo antes de enviar uma equipe à Grécia para decidir sobre a próxima parcela de recursos. Nenhuma equipe deverá vir até pelo menos julho, supondo-se que novas eleições sejam realizadas em meados de junho.

De acordo com o memorando assinado pela Grécia junto a seus credores, o novo governo precisa aprovar 11 bilhões de euros em novos cortes de gastos – incluindo demissões, pagamentos de pensões e reduções de salários – antes de receber o próximo pagamento.

No entanto, à medida que a economia grega segue em queda livre e as obrigações em débito se acumulam – analistas afirmam que a Grécia deve 6 bilhões de euros em restituições de impostos a exportadores e outros fornecedores nacionais –, membros do governo vêm fazendo lobby junto aos líderes estrangeiros da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI para abrandar os cortes deste ano.

Segundo Gikas Hardouvelis, consultor econômico do primeiro-ministro Lucas Papademos e participante das negociações sobre o resgate mais recente, o FMI defende uma visão mais descontraída sobre os cortes – à luz das dificuldades econômicas enfrentadas pela Grécia.

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Mas é a Europa, com medo de estimular novos deslizes políticos na Grécia, que está pressionando pela linha de austeridade. E o perigo dessa abordagem vem crescendo dia após dia, garantiu ele.

"Por alguma razão, os linhas-duras da Europa estão dizendo que merecemos isso", explicou Hardouvelis. "Eles destruíram o centro político daqui, e a possibilidade de criar outro Hugo Chávez não é nula."

No atual momento, parece improvável que a Grécia tenha a chance de ver se Tsipras – com seu discurso de repúdio à dívida do país e oposição à privatização – se tornaria tão radical quanto Chávez, o líder venezuelano.

Mas sua mensagem de que a Grécia pode permanecer no euro e rejeitar os cortes orçamentários da Europa fez sucesso, por mais contraditória que a ideia possa ser.

Novas pesquisas mostram que o apoio a Tsipras aumentou de 16,7% nas eleições anteriores para 27 por cento – número que, se confirmado numa eleição, faria dele o maior captor de votos do país.

"Como a Europa poderá recuperar seu dinheiro de um país falido? Eles terão de abrandar as exigências", argumentou Vasilis Nikolopoulos, motorista de táxi de 56 anos cuja renda caiu 60% nos últimos dois anos.

Nikolopoulos é um antigo apoiador do partido Nova Democracia, de direita, mas decidiu votar em Tsipras desta vez, acusando os partidos de centro de complacência em relação à Europa.

"Precisamos mudar a situação atual e dar uma oportunidade aos jovens", afirmou ele, referindo-se a Tsipras, de 37 anos.

Mas, segundo Hardouvelis, é aí que mora o perigo.

Pois, exceto por alguns pequenos descontos em cortes de gastos, não há como contornar o fato de que a Grécia precisará impor profundas reduções orçamentárias nos próximos anos.

"Alguém precisa explicar ao povo grego que não se pode guardar o bolo e também comê-lo", disse ele. E se os gregos continuarem ignorando esse fato, poderão acabar do lado de fora.

"A ameaça de que a Grécia pode deixar o euro é real", insistiu ele. "Se eles realmente quiserem nos expulsar, isso será feito – eles só precisam da assinatura de 16 países."

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(Por Landon Thomas Jr. e Eleni Varvitsioti)

 
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