A filial da General Motors do Brasil tem posições sólidas, com lucro há dois anos seguidos, mas poderá ser afetada numa eventual falência da matriz. Um dos impactos pode ser a determinação judicial de venda dos ativos do grupo, o que incluiria a subsidiária brasileira, assim como outras unidades.

Segundo um advogado de um grande escritório de São Paulo, "quebrar lá fora não significa necessariamente quebrar no Brasil, pois as empresas têm personalidades jurídicas diferentes". Ele afirma, porém, que a unidade local poderá fazer parte da massa falida e ser vendida para outro grupo.

O especialista também afirma que a fábrica brasileira pode ter problemas de imagem. "Se a mãe quebra, pode haver uma reação de falta de confiança, que resultaria em queda de vendas."

O advogado pondera, entretanto, que a falência de uma montadora pode criar muita insegurança no mercado e que, certamente, há vontade política do governo e dos próprios credores de evitar a medida.

Para consultores especializados no setor automotivo, mesmo que a situação da GM nos EUA chegue ao ponto de falência ou concordata, a filial brasileira não seria afetada, pelo menos de imediato. "Apesar da indústria ser globalizada, as montadoras têm vida própria em cada região", diz Marcelo Cioffi, da PriceWaterhouseCoopers. Para ele, a unidade do Brasil pode até servir de exemplo na recuperação da matriz.

A mesma opinião tem Paulo Roberto Garbossa, da consultoria ADK. Ele acredita que a GM brasileira mantém independência no desenvolvimento de veículos e na decisão de investimentos. André Beer, ex-executivo da GM que hoje comanda a André Beer Consult, também vê a operação brasileira como "independente" e acha que o consumidor não deixaria de comprar carros da marca por causa da situação nos EUA.

"Há alguns anos a GM, assim como outras montadoras, desenvolve carros específicos para o Brasil e América do Sul, com praticamente 100% de peças nacionais, o que daria grandes chances de a empresa manter suas atividades no País inalteradas", afirma Garbossa.

Na opinião de Beer, "não seria interessante matar a galinha que está botando ovos razoáveis". A GM do Brasil responde por cerca de 40% das vendas da marca na região que engloba América do Sul, África e Oriente Médio, que apresentou lucro de US$ 514 milhões no terceiro trimestre, enquanto as operações globais tiveram perda de US$ 2,5 bilhões no período.

Com quatro fábricas no País e uma quinta em construção, a GM é a terceira maior fabricante de veículos no Brasil, atrás da Fiat e da Volkswagen. A empresa tem em andamento um programa de investimentos de US$ 1 bilhão e trabalha para conseguir mais US$ 1 bilhão, com recursos próprios), para um plano de renovação de toda sua linha de produtos nos próximos anos.

Cioffi afirma que, no longo prazo, a empresa nacional pode ter problemas, pois é difícil que "as pernas vão andar sozinhas sem o corpo", ou seja, a filial não pode se manter sem a matriz.

Os três consultores acreditam que o governo americano vai socorrer a indústria automobilística, em especial a GM, até o ano passado a maior montadora de veículos do mundo.

"Acredito que o problema será solucionado no médio prazo e as empresas vão superar essa crise", diz Beer. São grupos que geram empregos, riqueza e tributos, ressalta. Além disso, tem ampla cadeia de fornecedores, revendas e serviços que empregam milhões de pessoas.

Beer aposta que a ajuda do governo americano à GM dará fôlego para a empresa em 2009, ano que ele considera crítico. A partir de 2010, ela teria condições de recuperar mercado. Nessa fase, porém, a GM deixaria de ser uma gigante. Será mais enxuta, com processo e produtos reestruturados. "Os carrões não voltam mais."

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