Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Crise mundial e seca marcam fim da forte expansão argentina

BUENOS AIRES - Os tempos de crescimento asiático ficaram definitivamente para trás. Depois de seis anos crescendo a um ritmo médio de 8,5% (60% de expansão acumulada desde a crise de 2001), números preliminares indicam que a economia argentina fechou 2008 com menos de 7% de crescimento.

Valor Online |

Para 2009, enquanto o governo admite um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de apenas 4%, as estimativas do setor privado mais otimistas falam em no máximo 3%, alguns estimam 0,5% a -2%.

A crise internacional explica parte da reversão, mas não toda. Na verdade, o PIB argentino já vinha se desacelerando desde o início de 2008, por causa da alta da inflação e pela queda da produção e exportação agrícola, resultado de uma política deliberada - e para muitos, equivocada - do governo da presidente Cristina Kirchner.

Ao contrário do que aconteceu com o Brasil, a Argentina não sofreu tanto com a falta de crédito decorrente desta crise que se gerou dentro do sistema financeiro dos países centrais. É que, devido à moratória da dívida externa declarada em 2002, o país perdeu o acesso ao mercado de crédito. O isolamento evitou, portanto, o contágio da crise pela bancarrota dos grandes bancos americanos e europeus, mas, por outro lado, é um dos maiores empecilhos para um aumento dos investimentos produtivos no país.

A crise bateu forte em alguns dos setores mais importantes da economia argentina como o automobilístico (leia matéria abaixo) e o agropecuário. Além de geradores de divisas, eles contribuem com grande parte do caixa do governo, o que indica um risco ao equilíbrio das contas públicas.

" A queda dos preços das commodities é o canal de transmissão da crise para a Argentina " , definiu Diego Coatz, economista da União Industrial Argentina (UIA).

À queda forte dos preços internacionais dos principais produtos de exportação (trigo, milho, soja e girassol) se somou a mais grave seca em 50 anos. Estima-se que a perda de produção este ano chegará a 30% da safra de grãos.

As exportações agropecuárias, que no ano passado totalizaram US$ 28 bilhões, representam 40% das exportações totais da Argentina. O setor ainda contribui com cerca de 14% da arrecadação do Tesouro, através do pagamento de direitos de exportações de grãos, carnes e laticínios.

Ao analisar as perspectivas para o setor agrícola em janeiro, o economista Carlos Melconian, da M & S Consultores, chegou à conclusão de que a quebra de safra com a seca, somada à baixa dos preços internacionais, vai levar a uma queda de pelo menos 30% (entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões) das exportações totais ao longo de 2009. A previsão só muda se a chuva voltar firme e os preços da soja subirem.

A perda de receitas com as exportações compromete o ajuste fiscal do governo, que necessita um superávit primário mínimo de 30 bilhões de pesos (aproximadamente US$ 8,5 bilhões) para cumprir com todas as suas obrigações, calcula Melconian. Dados oficiais divulgados na terça-feira pela Afip, a Receita Federal argentina, mostraram que a arrecadação tributária em janeiro cresceu 11% comparado a janeiro de 2008, o menor ritmo desde abril de 2006.

Do total arrecadado, de 24,1 bilhões de pesos, só a seguridade social registrou aumento expressivo (70%) graças à estatização do sistema privado aprovada em novembro pelo Congresso. O valor arrecadado com o Imposto de Renda subiu apenas 0,2%, enquanto o IVA (imposto sobre comércio de bens e serviços) caiu 0,3% e os impostos sobre o comércio exterior (direitos sobre exportações e importações) caíram nada menos que 25%.

Na tentativa de conter os efeitos da crise internacional, a presidente Cristina optou por fazer mais do mesmo: estimular o consumo para manter a atividade econômica doméstica, receita que vem sendo aplicada desde 2004 quando o ex-presidente (e marido de Cristina) Néstor Kirchner assumiu o poder. Desde dezembro foram lançados diversos programas de incentivo tributário e creditício para aquisição de automóveis, geladeiras, fogões e equipamentos de calefação.

Segundo entidades ligadas aos fabricantes, os incentivos estão funcionando relativamente bem para a linha branca, mas os resultados com automóveis são fracos. Também foram lançados programas de obras públicas no valor de US$ 21 bilhões, medidas para proteger a economia da concorrência de importados, crédito às micro e pequenas empresas e um plano para trazer de volta ao sistema oficial dinheiro da poupança de argentinos que está no exterior ou guardado " debaixo do colchão " .

Enrique Mantilla, presidente da Câmara de Exportadores da República Argentina (Cera), diz que o único incentivo às exportações nos pacotes recentes foi a licitação entre os bancos de US$ 50 milhões em recursos da seguridade social para pré-financiamento a juros subsidiados. Dado o valor das exportações, diz Mantilla, isso é praticamente nada.

Quase nada foi também o que recebeu a agricultura. A não ser por uma pequena redução do imposto de exportação de trigo e milho, o governo resiste a lançar um programa nacional para conter os efeitos da estiagem. As medidas para aliviar as perdas com a seca têm sido pontuais, como a liberação de recursos para produtores de leite em alguns municípios e a decretação de emergência na província de Buenos Aires, para que os agricultores possam atrasar o pagamento de impostos e empréstimos. Produtores agropecuários dizem que a desatenção está relacionada com a disputa política que o setor mantém com o governo há um ano, quando o campo parou suas atividades por três meses em protesto contra a tentativa do governo (frustrada pelo Congresso) de elevar os impostos do setor.

Os incentivos claramente direcionados à indústria não animam os empresários. Diego Coatz, da UIA, diz que a queda das exportações afeta setores industriais intensivos em mão-de-obra como automobilístico, têxtil, plásticos, siderúrgicos e metalúrgicos. Além disso, dois dos pilares do modelo econômico argentino, o câmbio desvalorizado e os juros baixos estão comprometidos. O custo do crédito interno nos bancos disparou, chegando a 50% ao ano nas linhas para pequenas e médias empresas, antes de baixar para 20% a 30% nas últimas semanas.

Na área cambial, enquanto Chile, México e Brasil desvalorizaram suas moedas entre 20% e 30%, o peso argentino desvalorizou-se apenas 15% frente ao dólar desde o início da crise. A alta da inflação, somada ao atraso no ajuste cambial, fez com que o câmbio real (descontada a inflação) ficasse 10% a 15% acima do que a indústria considera como " câmbio de equilíbrio " , calcula Coatz.

(Janes Rocha | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG