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Crise já chegou ao país, dúvida é sua extensão

SÃO PAULO - A crise financeira global já atingiu à economia real do Brasil, mas a dimensão do estrago depende do quão rápido será o restabelecimento da confiança nos mercados e a volta do crédito no mundo, sem o qual, nenhuma economia consegue operar. A avaliação é do economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados

Reuters |

Mesmo reconhecendo que as empresas brasileiras estão mais bem preparadas, o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1995-1998) pondera que no momento em que a crise travou os mercados de crédito, a crise financeira atingiu imediatamente a chamada economia real do país.

"A primeira coisa de fato que já pegou a economia real, há duas ou três semanas, foi a paralisia sem precedentes do crédito... o que já estava caro e difícil, paralisou", disse o economista, em entrevista à Reuters.

"Chegamos ao ponto de não termos ACC (Adiantamentos de Contrato de Câmbio), coisa que jamais aconteceu nessa intensidade", acrescentou Mendonça de Barros, lembrando que os problemas vividos em 2002 com este tipo de instrumento --fundamental para os exportadores-- foram provocados por preços altos. Agora, o problema é de disponibilidade.

Outros efeitos da chegada da crise ao mundo real serão sentido mais à frente, como a diminuição da demanda interna, responsável pela forte expansão da economia no atual ciclo de crescimentos, e uma nova estrutura de custos das empresas, por conta do novo patamar do dólar.

Ainda que incipiente, Mendonça de Barros pondera que já há sinais de retração nos gastos dos consumidores, o que afetará o desempenho das vendas das empresas.

"Mais do que qualquer momento do passado, nós tivemos duas coisas: a crise de crédito chegou instantaneamente aqui, porque estamos plugados com o mundo, e a cabeça das pessoas começou a mexer muito mais rapidamente do que antes, porque essa classe média alargada, que está tomando crédito, está muito mais alerta para isso", avaliou.

"Você tem um aperto do crédito, que é o combustível da produção, e alguma retração de demanda... com isso o setor real vai sofrer genericamente", acrescentou.

Natal sem festa

O impacto já sentido não comprometerá o crescimento econômico do país em 2008. Mas o mesmo não pode ser dito para os próximos anos.

"Nós vamos ter um PIB melhor do que o Natal", brinca Mendonça de Barros.

Para ele, o bom desempenho da economia na primeira metade do ano garante uma expansão de pelo menos 5 por cento para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2008.

"Mas o Natal vai ser afetado pelas decisões mais na ponta, e isso vai fazer uma certa diferença."

Para 2009, o cenário não é positivo.

"Nós vamos ter uma redução do crescimento, isso não tem dúvida nenhuma. E essa redução vai se dar parte pela demanda externa, mas uma parte vai ser na demanda interna, do investimento, especialmente, e do consumo das famílias", ponderou.

A maior preocupação dentro deste cenário é o fato de que o investimento é considerado por Mendonça de Barros como "o maior candidato a sofrer", o que pode gerar efeitos negativos para a economia num cenário de mais longo prazo.

"Especialmente aquele investimento que a empresa planejou, mas não pôs o bloco na rua completamente, o que é um problema pra mais adiante, o que é uma fonte clara de preocupação."

Olhando a crise sob o prisma mais político, Mendonça de Barros lamenta o comportamento das autoridades do governo --"especialmente fazendárias e o próprio Planalto"-- que têm evitado admitir a complexidade da situação atual.

Nesta tarde, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu mais um exemplo do que poderia ser classificado como otimismo exagerado ao dizer que o Brasil está mais preparado para enfrentar a crise "do que qualquer país do mundo".

"Evidentemente ninguém vai sair chamando a mãe, obviamente não é o caso, mas acho que uma coisa um pouco mais comedida seria de bom alvitre", concluiu Mendonça de Barros.

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