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Crise já atinge a construção civil, mas obras de longo prazo ¿minimizam¿ seus efeitos

A crise financeira mundial já provoca demissões nas construtoras brasileiras. O setor deve fechar o ano com 100 mil trabalhadores a menos que o que tinha em julho, segundo informações do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil no Estado de São Paulo (Sintracon-SP). No entanto, o impacto maior deve ser sentido após o 1º trimestre de 2009. As obras iniciadas antes do ápice da desaceleração do mercado financeiro, que aconteceu em setembro, devem garantir números acima do PIB mesmo em um ano com menor oferta de crédito.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

 

Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon-SP), em outubro a construção civil aumentou em 342 mil os postos de trabalho em relação ao mesmo mês de 2007. Porém, a expectativa do presidente do Sintracon, Antônio Ramalho, era de um crescimento ainda maior. Em julho o setor tinha 2,2 milhões de funcionários e deve fechar o ano com cerca de 2,1 milhões.

As demissões já começaram. Enquanto entre janeiro e setembro deste ano a média foi de 40 cortes por dia, em outubro ela mais que triplicou. Tivemos uma média de 150 demissões por dia e isso considerando que a empresa pode demitir direto pelo Ministério do Trabalho [Delegacia Regional do Trabalho] e que só passa pelo sindicato quem tem mais de um ano no emprego, afirmou Ramalho. Em novembro, a média foi entre 70 e 80 rescisões diárias. Cerca de sete mil funcionários foram contratados no último mês, ao passo que aproximadamente 11 mil foram demitidos.

O número de lançamentos imobiliários também já dá sinais de recuo. De acordo com pesquisa do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, locação e Administração de Imóveis dos Condomínios Residenciais e Comerciais do Estado de São Paulo (Secovi-SP), em setembro deste ano foram lançadas 2.368 unidades, uma queda de 35% em relação a agosto, quando foram lançadas 3.642. A insegurança do consumidor é percebida no volume de imóveis novos comercializados na cidade. Em setembro foram vendidas 2.544 unidades residenciais, enquanto no mês anterior foram 4.146 unidades.

Arte/US

Por isso, para fazer frente à crise, gigantes do setor já anunciaram medidas de contenção. A construtora Queiroz Galvão abortou três lançamentos previstos para este ano. Tínhamos previsão de crescimento de 30% a 40%, mas crescemos uns 20%, afirmou o superintendente regional de São Paulo, Pierre Prelorentzou.

A Abyara Planejamento Imobiliário informou, por meio de comunicado oficial, que suspendeu todos os lançamentos até que a demanda por novos produtos imobiliários e a disponibilidade de linhas de crédito sejam restabelecidas.

Segundo a empresa, em 2007 foram lançados 26 empreendimentos, no valor total de R$ 1,1 bilhão. Neste ano, foram lançados 19. Sem falar em números, a Abyara afirmou que demitiu 40% de sua folha de pagamento, o que representa uma redução mensal de R$ 1,5 milhão.

Para Ramalho, presidente do Sintracon, as demissões foram exageradas. O empregador foi precipitado e não esperou pelo resultado das pressões que fizemos no governo, criticou. Ele assevera que os próprios empresários podem sair prejudicados com os ajustes que fizeram na equipe. É uma decisão precipitada gastar dinheiro com a rescisão porque se o impacto da crise não for forte ele vai ter que contratar daqui a alguns meses e isso custa caro. Sem contar as obras que já foram vendidas e ele vai tem que entregar no prazo, afirmou.

E são justamente as obras já contratadas que, mesmo em um cenário de tensão nos mercados, devem garantir um ano com recorde de crescimento em 2008 na construção civil. O setor trabalha com ciclos longos, de 8, 12 e até 36 meses. Hoje não temos empresas parando as obras no meio do caminho, explicou a economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Projetos, Ana Maria Castelo.

Neste ano, a previsão do Sinduscon é de crescimento de 10% sobre 2007, quase o dobro do projetado para o PIB nacional, que é 5,2%, de acordo com as previsões do relatório Focus, do Banco Central, divulgado em 5 de dezembro.

Em 2007, o boom imobiliário levou a um crescimento de 7,8%. Se as projeções para 2008 se confirmarem, o setor atingirá um PIB de R$ 113,6 bilhões, representando um crescimento acumulado de 34% desde 2004, segundo o Sinduscon. No mesmo período, o PIB brasileiro cresceu 26%.

Este desenvolvimento pode ser verificado também pelo incremento no consumo dos principais materiais utilizados na construção civil, como o cimento e o aço, que registraram aumentos de 15% e 37%, respectivamente, em toneladas vendidas em 2008. Não é exagero chamar de taxas chinesas de crescimento, já que elas refletem um nível importante, nestes últimos anos, do aumento do consumo das famílias e investimento das empresas e do governo, afirmou Ana Maria.

Expectativas para 2009

O Sinduscon trabalha com dois cenários para 2009: um básico, em que o PIB ficaria em 3,8% e a construção civil cresceria 4,7%, e outro de ajuste lento, com crescimento do PIB em 2,8% e da construção civil de 3,5%. A primeira opção é a mais provável, segundo o presidente do Sinduscon, Sergio Watanabe. Os financiamentos da poupança e do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) não foram afetados pela crise de crédito e o BNDES deve garantir parte dos investimentos em infra-estrutura, considerou.

No dia 2 de dezembro, a Caixa Econômica Federal (CEF) informou que espera atingir, até o final do ano, R$ 22,8 bilhões em financiamento habitacional. Até o dia 26 de novembro foram assinados 446 mil contratos, totalizando R$ 20,4 bilhões, um crescimento de 60% em relação ao mesmo período de 2007. Segundo o banco, a taxa de inadimplência foi baixa e ficou em 4,09% do total até o final de outubro.

A Caixa também divulgou a liberação de capital de giro para as empresas de construção civil. De acordo com o vice-presidente do banco, Jorge Hereda, a princípio são R$ 3 bilhões destinados a essas operações. Ele garante que mais R$ 1 bilhão pode ser reservado se necessário. As taxas de juros são de 10% a 11% ao ano mais TR de acordo com o rating da empresa (capacidade de saldar a sua dívida). Em 2009 vamos manter a disposição de superar este orçamento com as mesmas condições deste ano, afirmou. O ano que vem vai ser mais difícil, mas nosso crédito é para longo prazo e isso nos dá tranquilidade de continuar apostando, acrescentou. A expectativa da Caixa é de crescimento de 20% em 2009.

Apesar do receio com as demissões, a expectativa do presidente do Sintracon para o próximo ano também é positiva. Entre os fatores de otimismo, Antonio Ramalho destacou os financiamentos da Caixa com utilização do FGTS destinados à compra de imóveis avaliados em até R$ 130 mil para famílias que tenham renda mensal de até R$ 2 mil. A taxa de juros, que hoje é de 6%, ao ano cairá para 5% em 2009 e, para as pessoas que tiverem mais de três anos de trabalho com registro em carteira, cairá para 4,5%. Tem também as obras do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], que não podem parar, e a Copa de 2014, que já está fazendo uma série de empresários investirem em hotéis e o governo em aeroportos, completou.

Para o economista e diretor do Secovi¿SP, Celso Pretucci, 2009 não deve ser um ano de crise, mas sim de volta a realidade. Segundo ele, 2007 e 2008 foram anos atípicos na construção civil. O mercado imobiliário da cidade de São Paulo lançava, até 2006, uma média de 24 mil unidades por ano. Em 2007, com a abundância de crédito e a abertura de capital, o mercado lançou 38 mil unidades. Neste ano, com a revisão de lançamentos por causa da crise devemos fechar em torno de 34 mil [unidades], afirmou. Segundo ele, a previsão do Secovi é que para 2009 cerca de 30 mil unidades sejam lançadas. O mercado vai continuar crescendo, mas agora com percentuais mais perenes, considerou.

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