Há dois anos, a Islândia foi considerada pela ONU como o melhor país para se viver. Ontem, o pequeno país a noroeste da Europa se transformou no primeiro caso de queda de um governo por causa da atual crise financeira.

A dissolução ainda foi um sinal de alerta a vários governos que enfrentam, neste ano, eleições em meio à crise.

A Islândia foi o país mais afetado até agora pela crise e, segundo a imprensa local, não há uma só família que não tenha alguém falido. O próprio governo admitiu uma "falência nacional". Em apenas três meses, o desemprego cresceu de 1,9% para mais de 7%. Em dois meses, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita caiu de US$ 42 mil para US$ 39 mil, ainda assim um dos mais altos do mundo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou um pacote de mais de US$ 10 bilhões para o país. Mas nada disso foi suficiente e os bancos quebraram ante a total exposição ao mercado financeiro e às bolsas de valores de Londres e Nova York. As dívidas acumuladas se tornaram impagáveis, e o cálculo do governo era de que os bancos haviam tomado empréstimos de instituições estrangeiras equivalentes a seis vezes o PIB do país. Como resultado, o PIB deve cair quase 10% em 2009.

Na semana passada, o primeiro-ministro conservador, Geir Haarde, já havia anunciado que convocaria eleições em maio e não concorreria a mais um mandato. A população não concordou e voltou a protestar, pedindo sua saída. Ontem, Haarde não resistiu e anunciou o fim do governo de coalizão.

A líder do partido social-democrata, Ingibjorg Gisladottir, também anunciou que não concorreria ao governo de um país que, antes de tornar-se um centro financeiro, era basicamente um centro de pesca. O primeiro-ministro, que anunciou ainda que está com câncer, espera liderar um governo de emergência até maio. Mas não há garantia. "Ninguém sabe hoje quem é que governa o país", disse ao Estado o brasileiro Pedro Ziviani, que vive na Islândia.

Nos últimos anos, empresários da ilha de pouco mais de 320 mil habitantes passaram a apostar alto. Compraram bancos no exterior, abriram completamente a economia e permitiram iniciativas de alto risco. Os empresários também passaram a comprar empresas em toda a Europa e até clubes de futebol, como o West Ham United, que levou do Corinthians o argentino Carlos Tevez.

Mas foi o setor financeiro que fez o país brilhar, por alguns minutos. Nas ruas, o impacto era claro dessa nova fase. O país passou a ser o maior consumidor de carros de luxo por habitante. O governo decidiu praticamente eliminar o uso de papel na burocracia e digitalizou tudo o que tinha. Confiantes na organização escandinava, muitas prefeituras e fundos sociais ingleses colocaram seus recursos na Islândia.

Mas a crise foi um duro golpe. Os bancos Landsbanki, Glitnir e Kaupthing tiveram de ser estatizados para não deixar milhares de pessoas quebradas. A quebra dos bancos locais também gerou a quebra de algumas prefeituras inglesas. A crise, além de derrubar o governo, fez ressurgir algo que muitos pensavam já não existir: protestos e violência.

Na semana passada, manifestações violentas ocorreram na capital, as primeiras desde 1949. Oito mil pessoas enfrentaram o frio quase polar para protestar. Os jornais locais garantem que foi a maior manifestação na história do país. "Os organizadores do protesto prometem continuar nas ruas, até que o presidente do Banco Central também seja retirado", disse Ziviani.

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