A Conferência Internacional sobre Biocombustíveis será aberta hoje em um momento de incerteza sobre a política que o futuro governo dos Estados Unidos adotará para a questão. Em especial, sobre a cooperação bilateral com o Brasil.

Imaginada como meio eficaz de combate aos lobbies contrários à expansão comercial do etanol e do biodiesel, a reunião poderá diluir as teorias de que os biocombustíveis são responsáveis pelo desmatamento da Amazônia e pela elevação dos preços mundiais dos alimentos. Mas, ao omitir o rumo da administração do democrata Barack Obama para o tema, a conferência não atingirá a ambição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de colocar todas as dúvidas sobre o etanol "em pratos limpos".

Em princípio, Obama não enviará à conferência nenhum membro de sua equipe de transição, que começou a atuar em Washington na semana passada e ainda não se debruçou sobre essa questão específica. Na semana passada, em conversa por telefone com Lula, o futuro presidente dos EUA afirmou que pretende aprofundar a cooperação bilateral na área de biocombustíveis, iniciada em março de 2007.

Mas teve o cuidado de não detalhar em que sentido. Sustentado em convicções protecionistas, Obama havia deixado claro em várias oportunidades, durante sua campanha eleitoral, que manterá a barreira tarifária ao etanol brasileiro. Com Lula, não abordou esse ponto delicado.

Diante da indefinição do futuro governo americano, Greg Manuel, assistente especial internacional para Energias Renováveis do Departamento de Estado, aposta no apoio do Congresso americano à continuidade da atual política sobre biocombustíveis e da cooperação bilateral.

Manuel põe suas fichas no poder de convencimento do senador democrata Richard Lugar, um dos mais insistentes defensores dos biocombustíveis. Lugar é um dos nomes apontados para o cargo de secretário de Estado de Obama. "No final das contas, o apoio a qualquer iniciativa nessa área caberá à equipe de Obama, que chegará aqui no dia 20 de janeiro", resumiu.

A crise financeira e o conseqüente recuo nos preços do petróleo relegaram esse debate a um plano secundário. De espaço original para a defesa da bandeira do biocombustível, a conferência tornou-se um evento a ser cumprido pelo Itamaraty, que desembolsou R$ 6 milhões para montar o encontro em São Paulo. Fontes do governo admitem, com ironia, que o tema biocombustíveis é, provavelmente, o "item 55" da lista de prioridades de Obama.

Convidado insistentemente por Lula, o atual presidente americano, George W. Bush, declinou da participação na conferência e enviará ao encontro uma delegação chefiada pelo secretário de Agricultura, Ed Schaefer. A ausência de Samuel Bodman, secretário de Energia, indica o interesse desse governo em final de mandato em abordar a questão pela ótica dos alimentos, e não pelo viés da segurança energética. A ausência de Bush e de outros líderes mundiais convidados por Lula esvaziou o contorno político que a conferência poderia ter. "A crise tira a faixa de miss da reunião", admitiu o embaixador André Amado, subsecretário de Energia do Itamaraty.

Amado avalia, porém, que a conferência será uma grande oportunidade para desfazer, entre os formadores de opinião, o que ele chama de "mitos" sobre o etanol. Primeiro, que a produção de cana tem impactos ambientais negativos porque estimula o desmatamento. Segundo, que o uso de produtos agropecuários para a produção de combustíveis foi o responsável pela alta dos preços das commodities.

Terceiro, que o plantio de matérias-primas para os biocombustíveis prejudicará a produção de alimentos. Otimista, o embaixador acredita que a onda contra o etanol já está refluindo.

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