A crise imobiliária norte-americana é uma oportunidade para refletir sobre as falhas da modalidade de empréstimos e modificar o sistema bancário. A avaliação é do economista Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank, instituição especializada no microcrédito, há 25 anos, em Bangladesh, e que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006.


"Não é uma crise pequena, limitada a uma cidade ou a um país. Não está tudo bem. Temos que aceitar que há uma falha no sistema, e não é uma falha pequena, mas que custou trilhões de dólares. É importante rever as falhas para que isso não aconteça de novo", disse ele, após participar da cerimônia de comemoração de dez anos do Banco do Povo, criado pelo governo de São Paulo, na capital paulista.

Yunus ressaltou que todas as exigências dos grandes bancos na concessão de empréstimos, tais como garantias e advogados, não impediram que as perdas alcançassem os trilhões de dólares. Ele disse ainda que é preciso apontar os culpados pela crise. "Quem é o culpado dessa crise? Ninguém está perguntando, mas é hora de fazer essa pergunta."

Na avaliação dele, grande parte da crise tem origem no marketing agressivo das instituições de crédito, que venderam o sonho da compra da casa própria com a promessa de que a valorização dos imóveis faria o negócio valer a pena. "Um sistema que permite que uma bolha como essa ocorra não é bom. As pessoas que tomaram os empréstimos caíram numa armadilha", declarou. "E agora pediram ajuda ao governo, e os pagadores de impostos estão tendo que pagar pela falha do sistema."

Microcrédito e governo

Yunus esteve no Brasil em novembro e em junho, quando se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e voltou a repetir que o papel do governo quando se trata de microcrédito se limita à criação de uma legislação específica e de um órgão para regular o sistema. "Eu sempre digo que governo e microcrédito têm uma química ruim. Sempre peço para que o governo fique longe do microcrédito. O governo precisa criar o ambiente para isso, mas não se envolver com a parte operacional", reiterou.

De acordo com Yunus, quando o governo se envolve com o microcrédito, a solidez econômica deixa de ser a prioridade e dá lugar à política. "Por isso é muito melhor e mais seguro deixar o governo fora disso", explicou. Yunus disse que a legislação bancária é feita para as grandes instituições, enquanto que o microcrédito precisa de outras diretrizes. "É como tentar construir um barquinho que navega em águas rasas com a tecnologia de um grande navio que atravessa o oceano", comparou.

O economista disse também que o presidente Lula admitiu que o microcrédito não funcionava no Brasil como ele esperava e pediu ajuda para que o sistema fosse implementado no País. "É muito importante que se comece com um programa pequeno, mas sólido, para que ele tenha base para se expandir", concluiu.

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