A crise financeira mudou de natureza. Oito dias atrás apenas, era uma crise polida, respeitosa.

Devastava os Estados Unidos, mas não entrava na Europa. Por duas razões: primeiro porque Wall Street é um ninho de loucos, irresponsáveis e egoístas. Depois, os bancos europeus são maravilhas, verdadeiras relojoarias suíças, sólidos, eternos. Esses tempos misericordiosos acabaram. A crise, insensível a discursos e fronteiras, se infiltrou na Europa. Bancos começaram a cair.

Os governos ficaram surpresos. Taparam os buracos, mas isso não bastou. Vários bancos grandes cambaleiam. Aí a Europa despertou. Sua sorte é que o presidente em exercício da União Européia (UE) é o presidente francês Nicolas Sarkozy, famoso por seu "olho de águia". E, de fato, anteontem Sarkozy se pôs em campanha, com grande estardalhaço, dizendo que o capitalismo precisava ser "reinventado". Convocou para sábado, em Paris, seus parceiros europeus do G-8 (Alemanha, Inglaterra e Itália), além da Comissão de Bruxelas e do Banco Central Europeu (BCE).

Infelizmente, em vez de felicitarem Sarkozy, os outros europeus acharam que ele estava fazendo demais. " Mais um show de Sarkozy! As palavras não servem de nada. Precisamos de atos", resmungaram. Sarkozy, muito espantado, quis mostrar que a reunião de sábado não seria um simples show. Ele havia costurado um plano arrasador contra a crise. De noite, um despacho da agência Reuters revelava o plano: criação de um "fundo federal" de 300 bilhões para ajudar os bancos enfermos.

Esse despacho saiu às 18h 27. Sete minutos depois, o ministro alemão das Finanças, Peer Steinbrück, dava sua breve resposta: "Não!" E o plano francês entrava pelo ralo.

A França, apoiada pela Bélgica, a Holanda e o BCE, queria que a crise fosse tratada com um "fundo europeu centralizado". Esse sistema desagrada os alemães, favoráveis à "desconcentração dos poderes" na Europa. A Alemanha sempre foi contrária ao conceito francês de "governo econômico europeu", e mais contrária ainda a um "orçamento europeu".

Essas rixas entre os Estados europeus são muito graves, não só no âmbito financeiro como no político. É a construção européia, e, principalmente, sua mais bela conquista, a moeda comum que estão em risco. Há dez anos, quando o euro foi lançado, algumas vozes importantes disseram que ele estava condenado ao fracasso.

Por quê? Porque a carroça da moeda única tinha sido colocada à frente dos bois das instituições comuns. No entanto, o euro foi um sucesso. Ele rivalizava com o dólar e era gerido brilhantemente pelo BCE. Mas, no primeiro solavanco sério, a Europa se atrapalha. Agora que os bancos europeus se aproximam do abismo, a França e a Alemanha se desentendem e bloqueiam qualquer solução à altura do perigo.

Alguns dias atrás, os europeus zombavam dos americanos, incapazes de adotar o Plano Paulson. Hoje, a situação se inverte. O Plano Paulson está em marcha e a impotência, a cizânia, cruzaram o Atlântico. A disputa entre Paris e Berlim é inquietante. A explosão da UE em vários clãs antagônicos é simbólica de suas fraquezas. Para além do salvamento dos bancos, é a própria construção européia que está à prova. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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