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Depois de praticamente secar em meados de outubro, o crédito voltou a circular na economia brasileira nas últimas semanas. Engana-se, porém, quem pensa que a mudança é suficiente para contentar os clientes, principalmente as empresas.

Quem precisa de empréstimos no dia-a-dia reclama do custo mais alto, do aumento das restrições e diz que o nível ofertado é inferior ao de setembro.


"O máximo que se vê é a renovação (das linhas que já existiam)", afirma o presidente da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco. "A melhora é insuficiente", emenda o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. A questão, portanto, tem um foco diferente. Não se trata mais de discutir se o crédito voltará, mas como está voltando.

A Fiesp fez uma pesquisa com 35 grandes empresas e constatou que 55% delas sentiram mais dificuldade para conseguir empréstimos depois do agravamento da crise. Além disso, o custo aumentou. Segundo o levantamento, 60% das companhias informaram que está mais caro tomar dinheiro emprestado. A entidade apurou que o custo médio dos financiamentos subiu 56% entre janeiro e novembro. "Isso sufoca as empresas", queixa-se Skaf.

O presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, diz que as pessoas físicas também estão sofrendo - com a alta das taxas, maior seletividade na concessão do empréstimo e diminuição dos prazos de pagamento. "Antes, quem queria financiar uma geladeira ia à loja e apresentava o holerite. Agora, é preciso comprovar uma série de informações, como o tempo de trabalho na empresa", exemplifica.

O presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Adalberto Savioli, confirma o aumento das restrições. "Embora tenhamos percebido uma irrigação maior (do crédito), a forma está diferente do passado", afirma. "Hoje, raramente se financia 100% de um carro. Em geral, pede-se uma entrada. O prazo máximo é de 48 prestações, em comparação com 72 antes de a crise piorar", relata.

Para alguns especialistas, não há justificativa para que as restrições e os juros cobrados pelos bancos tenham aumentado tanto. "Ser mais precavido é uma coisa, aumentar as taxas desproporcionalmente é outra", diz o sócio da Integral Trust e ex-economista-chefe da Febraban, Roberto Troster. "(O Banco Central) tem de ver se há justificativa para os juros em determinadas situações. Sou contra tabelamento, mas, com abusos, durante algum tempo, pode ser adotado."

Troster e Skaf temem os efeitos das restrições na economia real. "Os dias estão passando e, se queremos evitar um impacto maior da crise no Brasil, precisamos de custos mais acessíveis", diz o presidente da Fiesp.

O economista-chefe da Febraban, Rubens Sardenberg, avalia que, depois do pior da crise (que ele acredita já ter passado), é natural que o crédito retorne em um nível mais baixo. "A oferta será menor do que antes, mas a demanda também cairá", pondera. Ele nota que o mundo mudou totalmente. "Antes, havia uma abundância de crédito; agora, é uma nova fase, com crescimento menor."

Sardenberg observa, ainda, que nem todo o dinheiro liberado pelo BC por meio da redução dos depósitos compulsórios e de outras medidas chegou ao mercado. Nas contas da entidade, até ontem, estavam disponíveis para empréstimos R$ 56 bilhões dos R$ 100 bilhões liberados. "O resto depende de fatores como a compra de carteiras de crédito bancos (menores pelos maiores)." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.