SÃO PAULO - O grupo CPFL fechou seu primeiro negócio para gerar energia a partir do bagaço de cana-de-açúcar. A empresa assinou um acordo com a usina de açúcar e álcool Irmãos Baldin, da cidade de Pirassununga, interior de São Paulo, e juntas as duas empresas vão investir R$ 100 milhões em um projeto de co-geração. Esta é a primeira vez que a CPFL vai gerar energia a partir de biomassa e não somente comprar a produção, como faz desde 1987.

O investimento será feito por meio da recém-criada CPFL Bioenergia, que pertence 100% à CPFL Geração. Neste primeiro projeto serão gerados 25 MW excedentes para venda no mercado livre. A capacidade instalada do projeto pode chegar a 45 MW e vai suprir também a demanda da própria usina Baldin. A energia entrará no sistema a partir de 2010 e será toda vendida para a CPFL Brasil que faz a comercialização.

Para se ter uma idéia do potencial de receita que um projeto como esse pode oferecer à CPFL Bioenergia, recentemente a comercializadora do grupo fechou a compra de cerca de 30 MW do grupo Cosan num valor total de R$ 500 milhões, que entrará gradativamente no caixa da usina ao longo de 15 anos. No leilão de energia de biomassa, realizado pelo governo em meados de agosto, os mesmos 30 MW geraram uma receita fixa anual de cerca de R$ 40 milhões.

No mercado livre, esse retorno pode ficar ainda mais atrativo. Os consumidores que se enquadram na categoria A4, ou seja, que consomem entre 500 kW a 3 MW de energia, podem comprar com um desconto de 50% na Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD). Segundo o presidente do grupo CPFL, Wilson Ferreira, para usufruir desse desconto o consumidor precisa comprar a energia de uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) ou de uma usina de biomassa que produz até 30 MW.

A estratégia da CPFL, por enquanto, é focar em pequenas usinas (que produzem até dois milhões de toneladas de cana) justamente para pegar esse público consumidor que pode ter o desconto da TUSD. Ferreira diz que a empresa já tem em estudo projetos de co-geração de até 500 MW. Dados apresentados por Ferreira mostram que hoje se produz no Brasil 1,4 mil MW de energia a partir do bagaço, ou 3% do total do sistema elétrico brasileiro. Cerca de 30% do que já é produzido é comprado pela CPFL, que adquire esse tipo de energia desde 1987. Em 2001, por causa do racionamento, a companhia inclusive incentivou 20 usinas de cana de açúcar a produzir energia para que pudesse comprar o excedente, ou seja, o que não é usado na própria usina. A expectativa da CPFL é de que, em 10 anos, a energia de biomassa represente 10% de todo o consumo do sistema, ou o equivalente a 14,4 mil MW.

Esse tipo de energia tem se mostrado muito atrativa e outras tradicionais empresas de geração também estão atentas ao mercado de biomassa. Assim como a CPFL, a Tractebel está investindo na geração de energia a partir da biomassa e chegou a participar do leilão do governo quando vendeu 20 MW, num projeto de investimento de US$ 120 milhões. A Energias do Brasil também vai entrar forte no negócio e, diferentemente das outras, não vai se associar a uma usina. Ela mesma vai cuidar da plantação da cana.

Para os usineiros, o negócio de geração também incrementa o faturamento. Estima-se em média que as empresas ganhem entre R$ 4 e R$ 8 a mais na tonelada de cana. A Baldin Bioenergia, como se denomina agora a Irmãos Baldin, produz atualmente 800 mil toneladas por ano de cana. Luiz Fernando Baldin estima que, com a parceria com a CPFL, sua produção aumente em 130%. Hoje a companhia fatura R$ 54 milhões por ano e pretende chegar a R$ 177 milhões. Os investimentos anunciados serão usados na compra de novas caldeiras, transformadores, subestações e no sistema de conexão.

(Josette Goulart | Valor Econômico)

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