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Cortejado por Chávez, Lugo assume no Paraguai

BRASÍLIA - O ex-bispo católico Fernando Lugo, 57, assume hoje a Presidência do Paraguai em meio a grande expectativa de mudanças no parceiro mais pobre do Mercosul. Ele é o primeiro presidente em seis décadas que não vem do Partido Colorado. Quase todos os presidentes da região comparecerão à posse, em Assunção. A incógnita talvez mais importante é se Lugo se alinhará ao bloco ligado ao venezuelano Hugo Chávez ou aos governos de esquerda moderados da região.

Valor Online |

Chávez vem cortejando ativamente o novo presidente paraguaio, a quem já ofereceu petróleo em condições vantajosas, para suprir a falta de diesel no país.

Os gestos de Lugo em direção ao venezuelano já incomodam o mundo político paraguaio, mas são recebidos com tranqüilidade e ceticismo pelo governo brasileiro. Em julho, Lugo acompanhou Chávez às comemorações da revolução sandinista na Nicarágua de Daniel Ortega, um dos principais aliados do chavismo. Após a posse hoje, Lugo terá encontro com Chávez, acompanhado do presidente da Bolívia, Evo Morales. Não está prevista reunião bilateral com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para analistas do governo brasileiro, esses movimentos cumprem a função de demonstrar publicamente o compromisso de Lugo com as teses de esquerda, enquanto faz concessões às forças políticas tradicionais, com quem montou o ministério. Lugo não tem maioria no Congresso, foi eleito com apoio do conservador Partido Liberal, que está representado no gabinete. Embora a imprensa local se preocupe com o esquerdismo de nomes-chave no novo governo, o novo ministro da Economia, Dionisio Borda, é um economista pragmático, com mestrado nos EUA, que assinou um acordo com o FMI durante breve passagem como ministro no governo atual, de Nicanor Duarte Frutos.

Lugo não faz segredo de suas intenções em relação à Venezuela: Não podemos nos manter nas políticas pendulares de Brasil e Argentina , disse há poucas semanas em entrevista a rádios paraguaias. Ele considera a Venezuela um contrapeso necessário aos dois maiores sócios do Paraguai na região.

A aproximação entre Lugo e Chávez desperta temores, entre analistas no Brasil, de que o venezuelano incentive o paraguaio a seguir, em relação à hidrelétrica de Itaipu, o exemplo de Morales, que adotou atitude hostil ao Brasil ao estatizar propriedades ligadas à extração de gás no país.

O governo brasileiro não crê nessa possibilidade. Argumenta que há diferenças brutais entre as duas situações, a começar pelo fato de que Itaipu é propriedade binacional, na fronteira dos dois países. É lembrada, ainda, a diferença óbvia entre as situações que levaram ambos ao poder - Lugo, que não representa nenhuma etnia paraguaia, teve de se aliar a setores conservadores para chegar ao poder.

Mesmo assim, ao se encontrar com a equipe de Lugo, no Paraguai, no início do mês, quando recebeu em detalhes a proposta do novo presidente para Itaipu, o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia fez questão de lembrar as diferenças entre as situações boliviana e paraguaia. Ele insistiu no interesse brasileiro em contribuir para o desenvolvimento paraguaio e argumentou que a única empresa com investimentos fortes na exploração de gás, hoje, na Bolívia, é a brasileira Petrobras.

A promessa de Chávez de petróleo venezuelano para Lugo é recebida no Itamaraty com a recordação de que oferta igual foi feita ao presidente Duarte Frutos, sem desdobramentos relevantes. Segundo diplomatas brasileiros, a carência de diesel no Paraguai é agravada pela necessidade do combustível nas usinas térmicas de eletricidade, problema que se imagina reduzir com a concretização da proposta brasileira de construir uma linha de transmissão de grande capacidade, de Itaipu a Assunção.

Há um acordo com Lugo de discutir pragmaticamente e com discrição, sem divulgação à imprensa, a demanda paraguaia de receber mais pela energia de Itaipu. Carlos Mateo Balmelli, o presidente nomeado por Lugo para Itaipu (a binacional tem um presidente brasileiro e um paraguaio) é ex-senador do Partido Liberal - a indicação levou a ministra escolhida para Relações Exteriores, Milda Rivarola, intelectual de esquerda, a pedir demissão antes de ser empossada.

Lugo se reúne com Chávez e Morales em San Pedro, onde era bispo (ele foi reconduzido ao estado laico pelo papa Bento XVI). Essa é a região onde os sem-terra iniciaram invasões e ameaças contra proprietários brasileiros, como forma de pressionar o novo governo, ao qual já criticam. Embora os sem-terra tenham forte capacidade de articulação, e ameacem interesses de produtores identificados com o Brasil no país, os pequenos e médios agricultores no Paraguai também tem tradição de organização, e, no passado, já impuseram, com bloqueios de estradas, os tratorazos , derrotas a governos.

Lugo deverá administrar os conflitos no campo sem ações repentinas contra os interesses desses produtores, aposta o governo brasileiro, que acompanha a situação, porém, com expectativa.

(Sérgio Leo | Valor Econômico)

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