O presidente do Fed, Ben Bernanke, disse ontem que os Estados Unidos podem entrar em recessão caso o Congresso não aprove o pacote para estabilizar o sistema financeiro. Sem o programa, os mercados financeiros, já frágeis, vão piorar, disse Bernanke, em audiência no Senado para apresentar a proposta do governo.

Segundo ele, sem o funcionamento dos mercados de crédito, "o desemprego vai aumentar, mais pessoas vão perder suas casas, o PIB vai contrair e a economia não vai se recuperar".

Mesmo assim, o plano foi recebido com ceticismo por muitos senadores, que o encaram como um pacote de resgate a banqueiros, sem socorro aos mutuários afetados pela crise de crédito. Ao fim da audiência no Senado, o líder do comitê bancário, o senador democrata Christopher Dodd, disse que o pacote do governo "é inaceitável" do jeito que está. Ele criticou a falta de detalhes da proposta e disse que o projeto permitiria ao secretário do Tesouro, Henry Paulson, agir com "impunidade absoluta".

"Depois de ler esta proposta, eu só posso concluir que não apenas nossa economia está em perigo, mas também nossa Constituição", disse Dodd. O senador republicano Richard Shelby sugeriu que o Congresso considere alternativas.

O plano permite ao Tesouro americano usar até US$ 700 bilhões para comprar dos bancos títulos podres - lastreados em hipotecas inadimplentes, pouco líquidos e difíceis de avaliar - e assim descongelar o mercado de crédito. O governo esperava que o plano fosse aprovado até o fim da semana, sem muitas modificações. "Precisamos aprovar essa lei de forma limpa e rápida, e evitar atrasá-la com medidas que não são relacionadas ao projeto e não têm apoio amplo", disse ontem Paulson.

Mas os legisladores se recusam a dar um "cheque em branco" ao Executivo e querem incluir medidas que beneficiem os mutuários, além de maior supervisão pelo Congresso.

Vários senadores disseram que se recusam a ser pressionados. Segundo eles, seus eleitores estão "revoltados" com o que consideram um resgate de Wall Street. "Recebi centenas de telefonemas em meu gabinete a respeito desse pacote, e nenhum foi positivo", disse o senador Sherrod Brown, de Ohio.

Os senadores querem incluir no projeto provisões de ajuda aos mutuários, mas Paulson e Bernanke resistem. Paulson disse ontem que mudar os termos de hipotecas ou restringir remuneração de executivos seria punitivo aos bancos, que então resistiriam em participar do plano de resgate.

Paulson e Bernanke também reagiram de forma negativa a propostas de que o governo americano ganhe participação acionária nos bancos que entrarem no pacote.

O secretário do Tesouro disse que, infelizmente, com pacote ou sem pacote, o contribuinte americano já estava condenado a ter prejuízo. "Eu tenho a mesma revolta que as pessoas. É uma vergonha para os Estados Unidos", disse ele, referindo-se à crise de crédito.

Legisladores têm muitas dúvidas sobre a operacionalização do plano - e a chance de ele funcionar. A maior armadilha será determinar o preço que o Tesouro vai pagar pelos ativos podres. Se pagar muito pouco - digamos 20% do valor de face, como os títulos podres vendidos pela Merrill Lynch em julho -, o governo acaba empurrando ainda mais os bancos para o buraco, porque os força a marcar essas grandes perdas nos balanços.

Se pagar quase o valor de face, muito mais do que valeriam no mercado, haverá grande impacto sobre os contribuintes que estão pagando pelo resgate. Mas Bernanke disse ontem que é contra a compra desses ativos a preços de "saldão".

O risco é que, ao pagar valor próximo ao de face, o contribuinte pode estar levando um calote - muitos desses papéis não serão honrados porque as hipotecas nas quais eles estão lastreados vão entrar ou já estão em inadimplência.

Para muitos críticos, a essência do pacote está errada. Economistas como Paul Krugman, Raghuram Rajan (ex-economista-chefe do FMI) e alguns legisladores acham que o Tesouro deveria recapitalizar os bancos, por meio de injeção de recursos em troca de participação acionária, em vez de comprar os ativos podres.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.