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Concentração acentua efeitos da crise sobre produção industrial

Rio, 11 - A concentração do recente ciclo de crescimento industrial nos segmentos automotivo e de bens de capital acentuou os efeitos da crise internacional sobre a indústria brasileira, segundo analistas. O professor da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Julio Sérgio Gomes de Almeida, estima que as atividades de veículos automotores e máquinas e equipamentos tenham sido responsáveis, sozinhas, por pelo menos 30% da queda de 19,8% em três meses na produção industrial no final do ano passado.

Agência Estado |

Esses mesmos segmentos tinham respondido por 40% do ciclo de forte expansão do setor a partir do final de 2006, mantendo essa fatia de participação ao longo de todo o ano de 2008, quando até setembro a indústria acumulava uma expansão de 6,4%. Para o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, "essa característica (de concentração nesse setores) é uma virtude, mas com fragilidades que foram reveladas com a crise, que quebrou esse padrão". Segundo ele, máquinas e equipamentos são sinônimo de investimentos e a indústria automobilística tem influência importante sobre vários setores.

Para ele, essa quebra foi marcada pela queda generalizada de setores no último trimestre. Rogério de Souza acredita que o momento atual, que segundo expectativas de alguns economistas precede a recuperação industrial que virá no segundo semestre, pode ser uma oportunidade para garantir um novo ciclo de expansão mais espalhada no setor.

A economista Isabella Nunes, da coordenação de indústria do IBGE, acredita que não houve mudança na tendência de liderança dos setores automotivo e de bens de capital e nem ocorrerá no médio prazo. Segundo ela, o ideal seria que todas as 27 atividades pesquisadas pelo instituto pudessem crescer em magnitudes similares. Porém, ela considera o padrão do crescimento anterior à crise "saudável" e acredita que vá perdurar também no processo de recuperação do setor.

O argumento de Isabella é que, assim como ocorreu em 2007 e no ano passado, o crescimento industrial em 2009 e, possivelmente, no ano seguinte estará apoiado sobretudo na demanda interna, ou seja, em bens de consumo duráveis, como automóveis e nos investimentos, favorecendo mais uma vez os segmentos líderes. "Não acredito que o padrão venha a ser alterado, há uma mudança de patamar, mas não de liderança", disse. Os dois segmentos têm, juntos, peso de 19% entre as 27 atividades investigadas na Pesquisa Industrial Mensal Produção Física (PIM-PF) do IBGE.

Isabella avalia que o aumento da renda e a oferta de crédito, que alavancaram a demanda interna, definiram o padrão de crescimento desde 2007. "É um crescimento de qualidade, o País não poderia depender só de segmentos exportadores, seria pouco", acredita. No entanto, ela concorda que a concentração contribuiu para aumentar a magnitude da queda.

O IBGE não fez a conta de qual a participação desses dois segmentos na derrocada industrial, mas calcula que, no ciclo de crescimento, essa fatia tenha ficado em torno de 42%. Mesmo sem a contabilidade, porém, Isabella considera correta a avaliação de Gomes de Almeida de que essas duas atividades contribuíram com pelo menos 30% da recente derrocada da indústria.

Ela exemplifica com os dados que revelam que, em três meses, a produção de veículos automotores caiu 54%, enquanto a de máquinas e equipamentos recuou 55%, as duas maiores quedas apuradas entre as 27 atividades investigadas. De janeiro a setembro do ano passado essas atividades cresceram, respectivamente, de 17,6% e 10,6%.

O economista do Iedi concorda que o crescimento liderado por dois segmentos com efeitos em cadeia tão significativos sobre a indústria e a economia "é virtuoso", mas ressalta que, ao mesmo tempo, pode se tornar uma fragilidade em momentos de crise, como está ocorrendo agora.

O problema, segundo Rogério de Souza, é que segmentos "tradicionais no desenvolvimento econômico" e que são grandes empregadores, como têxtil, vestuário e calçados, encolheram a produção e o emprego enquanto os líderes avançavam, com resultados muito heterogêneos para a expansão industrial. "Olhando para trás, parece que todos os ovos foram colocados em uma única cesta", observou, acrescentando que "o processo virtuoso criou sua própria fragilidade".

Para ele, a quebra do padrão anterior não significa necessariamente a construção de um padrão novo e, pelo menos neste primeiro trimestre, os segmentos líderes vão "reverberar" o ajuste do final do ano passado, enquanto os demais setores "dificilmente vão contrabalançar" esse fraco desempenho. "Esse padrão pode se formar de novo, dependendo de medidas governamentais e, sobretudo, do apoio do BNDES", avalia.

Segundo Souza a crise, no que diz respeito ao padrão de expansão industrial, deve ser vista como oportunidade para um espalhamento maior do crescimento quando houver a recuperação.

Para Gomes de Almeida, da Unicamp, o ajuste ocorrido nesses segmentos líderes no último trimestre de 2008, sobretudo na indústria automobilística, foi "um exagero involuntário". Segundo ele, o ajuste de estoques do setor foi feito a partir de uma expectativa muito pessimista, que não se confirmou exatamente da forma esperada em janeiro. "Isso é natural, em momentos de incerteza as empresas preferem reduzir a produção mais do que menos do que o necessário", explica.

Ele acrescenta que o reajuste forte de estoques é também uma tentativa de evitar recuos nos preços. "Reduzir muito a produção para desovar estoques sempre foi um meio de evitar quedas de preços", sublinhou. Segundo Gomes de Almeida, "o espalhamento da derrocada foi maior do que o do crescimento" e a indústria registrou, como se sabe, queda generalizada em dezembro, com apenas 25 de 27 atividades com sinal positivo. "Mas o tombo foi maior nos segmentos que cresciam mais", ressaltou. (Jacqueline Farid)

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