GENEBRA (Reuters) - A Organização Mundial do Comércio (OMC) vai se dedicar mais à arbitragem de disputas depois do fracasso na terça-feira de mais uma tentativa de concluir a Rodada Doha da abertura comercial global.

Os ministros que participaram dos nove dias de reunião deixaram Genebra reafirmando seu compromisso com o sistema comercial multilateral sob a égide da OMC. Mas muitos admitiram que por enquanto será mais fácil buscar acordos regionais ou bilaterais.

Muitos disseram também que vai levar um bom tempo até que a Rodada Doha, lançada em 2001, seja retomada, embora as atuais propostas permaneçam sobre a mesa.

'A OMC não se torna menos relevante ou importante porque a Rodada Doha cai. A Rodada Doha não é a OMC', disse à Reuters David Hartridge, consultor do escritório global de advocacia White and Case.

Além de promover a liberalização comercial, a OMC também ajuda a resolver disputas comerciais, ao colaborar para que governos a se ajustarem às tensões comerciais dentro de um marco jurídico aceito por todos, disse Hartridge, ex-diretor-geral-interino da OMC.

Como exemplo da capacidade da OMC para evitar que conflitos degenerem em sanções e retaliações, ele citou a antiga disputa entre EUA e União Européia por causa dos aviões da Boeing e da Airbus.

'O que poderia ser um conflito muito nocivo entre duas grandes potências comerciais [ficou] dentro dos limites da lei e do bom senso', disse ele.

PEQUENOS EM DESVANTAGEM

A poderosa Associação Nacional das Indústrias dos EUA também disse que o fracasso da Rodada Doha não deveria enfraquecer a OMC.

'Devemos nos preparar para o ataque dos que vão declarar que isso é o fim da OMC. Isso é um absurdo. A OMC é o árbitro do sistema comercial baseado em regras e vai continuar a ser o local para futuras negociações, amplas ou específicas', disse nota.

Com o colapso das negociações da Rodada Doha, os países devem buscar mais acordos bilaterais ou regionais, que são politicamente mais fáceis, mas que trazem menos benefícios econômicos do que os pactos globais.

Tais negociações, além disso, colocam em desvantagem os pequenos países em desenvolvimento, que são justamente os maiores derrotados com o fracasso do encontro ministerial na terça-feira.

O vice-ministro de Comércio e Indústria da África do Sul, Rob Davies, já sinalizou a intenção de buscar acordos individuais no novo cenário.

'Há outras opções [além da Rodada Doha]. E em algum momento este processo multilateral será provavelmente apanhado de novo', disse ele a jornalistas.

Mas ninguém sabe se e quando isso vai acontecer. Pascal Lamy, diretor-geral da OMC, prometeu não 'jogar a toalha' e disse que vários ministros lhe pediram para retomar em breve as negociações. Admitiu, porém, que antes será preciso esperar a poeira baixar e consultar os participantes.

O chanceler brasileiro, Celso Amorim, se disse perplexo com o fato de as negociações serem abandonadas depois de tantos avanços, e avaliou que uma retomada ainda levará três a quatro anos.

O comissário (ministro) europeu de Comércio, Peter Mandelson, disse que agora não há mais uma perspectiva visível de concluir o acordo a respeito de questões agrícolas e industriais, que são as mais complicadas.

Já o ministro indonésio do Comércio, Mari Pangestu, lembrou que a Rodada Uruguai, antecessora da Rodada Doha, chegou a ficar dois anos parada antes da bem-sucedida conclusão.

A Indonésia fala em nome do G-33, grupo de países em desenvolvimento que defendia um mecanismo especial de salvaguardas para pequenos agricultores contra surtos de importações -- justamente o item que provocou o naufrágio do evento.

ESTRADA ESBURACADA

'Este é um revés significativo para todo o sistema comercial internacional. Todos seríamos os ganhadores de um acordo de Doha. Sem ele, todos perdemos', disse Mandelson.

Para Lamy, a abertura oferecida pelo processo teria fortalecido a política global contra o protecionismo.

'Minha esperança é de que, devido à elasticidade do sistema, ele possa resistir à estrada esburacada que temos pela frente', afirmou.

Muitos especialistas acham que essa estrada esburacada pode se revelar no aumento dos litígios, como nas polêmicas envolvendo bananas, algodão e preços de importação. E é aí que entra a OMC.

'Se a Rodada Doha falha, é uma oportunidade perdida, com certeza, mas a OMC vai continuar sendo usada para resolver disputas onde sua integridade está intacta', disse David Woods, da consultoria World Trade Agenda, ex-porta-voz do Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio, entidade que antecedeu à OMC).

(Reportagem adicional de Laura MacInnis, Doug Palmer e William Schomberg)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.