SÃO PAULO - No início desta década, quando a chamada bolha da internet ainda estava inflando, notícias sobre aportes de fundos estrangeiros em empresas brasileiras de tecnologia da informação (TI) apareciam com alguma freqüência. Com a crise no mercado pontocom, os investimentos quase sumiram. Mas, agora, surgem os primeiros sinais de que a maré pode estar virando novamente.

Dois pesos-pesados americanos - o Goldman Sachs e o New Entreprise Associates (NEA) - anunciaram ontem um aporte de recursos na Spring Wireless. Apesar do nome, a companhia foi fundada por um brasileiro, Marcelo Condé, e atua no desenvolvimento de aplicativos de telefonia móvel para clientes empresariais. Oferece serviços como acesso ao e-mail corporativo, automação da força de vendas e sistemas de pagamentos via celular, por exemplo.

No total, a Spring recebeu US$ 63 milhões. A maior parte corresponde ao dinheiro que os fundos injetaram. Mas a Ideiasnet, que já tinha participação na empresa, também colocou dinheiro, evitando que sua fatia fosse muito diluída. Agora, ela tem 10,2% do capital. Dois outros acionistas saíram do negócio: Intel e Ericsson, que viram maturar o investimento feito anos atrás.

Estamos muito otimistas, não só pela valorização que foi atribuída à companhia, mas pela sinalização do que está por vir , afirmou Luis Alberto Reátegui, presidente da Ideiasnet.

O aporte na Spring é o primeiro investimento da NEA - importante fundo de capital de risco do Vale do Silício - em países da América Latina. A chegada de alguém desse porte mostra que os fundos estrangeiros estão voltando e devem começar a avaliar outras empresas de TI , disse Reátegui. A própria Ideiasnet, segundo ele, gostaria de fazer mais negócios com o NEA.

Na avaliação do executivo, a estabilidade, a crescente importância da economia brasileira e o cenário de desaceleração nos Estados Unidos tornam o Brasil uma alternativa interessante para os investidores.

A maior parte do dinheiro será utilizada nos projetos de crescimento da companhia , afirmou Condé, presidente da Spring.

E planos não faltam. O mais reluzente deles é uma possível abertura de capital na Nasdaq, prevista para o ano que vem.

Antes disso, contudo, a Spring quer expandir sua atuação fora do Brasil. Há poucas semanas, a companhia abriu escritório em Seattle, nos Estados Unidos, e quer se instalar na Ásia em dois meses. A meta é que, a partir de 2009, as atividades internacionais gerem pelo menos metade da receita da companhia.

Segundo Condé, a companhia também está adaptando sua tecnologia para atender um segmento novo para ela: o mercado de pequenas e médias empresas.

Desde a criação da Spring, em 2001, o foco sempre foram as grandes corporações. Agora, a empresa está trabalhando para desenvolver versões simplificadas de seus aplicativos, com o objetivo de atender companhias de menor porte. Sempre percebemos que havia demanda das pequenas empresas, mas precisávamos adaptar nossos produtos e o canal de vendas , observou Condé.

Para entrar nesse mercado, a Spring está em negociações com operadoras de celular no Brasil e já tem alguns contratos fora do país. Firmou parceria com a Telefónica para atender pequenas empresas da América Latina e da Espanha.

Com esse leque de projetos, a expectativa é de que o faturamento da Spring ultrapasse US$ 100 milhões neste ano - o dobro do valor alcançado em 2007.

(Talita Moreira | Valor Econômico)

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