BRASÍLIA - Estatísticas da Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sugerem que o ajuste de estoques do setor deve ser longo. A relação entre estoques efetivos e planejados alcançou 56,4 pontos em dezembro, o maior indicador negativo de toda a série histórica iniciada em 1999.

Feito em janeiro e divulgado ontem, o levantamento aponta os piores dados trimestrais dos últimos 10 anos e revela uma característica perversa e diversa das outras crises: as grandes empresas foram as primeiras e mais atingidas pela forte exposição ao crédito e ao mercado externo. Já os pequenos empreendimentos, geralmente no topo dos abalos em crises anteriores, só agora vão começar a sentir os danos pelo fato de a produção estar voltada ao mercado interno.

"A crise veio por fora, prejudicando primeiro as grandes (companhias), que dependem mais da demanda externa", comentou o economista da CNI, Renato da Fonseca, responsável pela sondagem. "Para as pequenas empresas, a crise deve se espraiar e ser mais sentida agora, neste primeiro trimestre", prosseguiu ele.

O economista-chefe da CNI, Flávio Castelo Branco, complementa que os dados apontam para "um processo de ajuste num horizonte de, pelo menos, seis meses à frente".

Ele destacou a questão do aumento dos estoques, que para alguns analistas pode gerar pressões inflacionárias à frente. "Mesmo com a forte queda na produção, o ano de 2008 se encerrou com acúmulo indesejado de estoques", comentou. O problema é mais grave entre as grandes empresas, grupo em que o índice aumentou 4,9 pontos sobre o terceiro trimestre de 2008, atingindo 60,2 pontos.

Fonseca chamou a atenção para as preocupações citadas pelas empresas para o primeiro semestre. A queda de demanda ganhou bastante espaço, embora a alta carga tributária ainda lidere a lista. O problema da demanda passou de sexto para o segundo lugar entre as pequenas empresas e também saiu do sétimo para o segundo entre as grandes. Já a inadimplência ganhou destaque entre as preocupações de pequenos e médios empresários, enquanto para as grandes companhias ganhou relevância a falta de financiamento de longo prazo.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

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