Brasília, 20 - A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estimou hoje que apenas 18% da safra de soja 2008/09, que está sendo plantada, foi vendida antecipadamente até o momento. O porcentual está muito abaixo da média histórica dos últimos anos, que é de 45% para esta época do ano.

Os dados foram apresentados hoje pela presidente eleita da CNA, senadora Kátia Abreu (DEM-TO).

Ela acrescentou que há problemas na comercialização do trigo, que está sendo vendido a R$ 25 a saca, enquanto o custo é de R$ 28 a saca. "A situação do milho é ainda mais grave", disse ela, referendo-se à diferença entre preço recebido pelo agricultor e o custo de produto, ressaltando que o estoque do cereal soma 13 milhões de toneladas, o que corresponde ao volume produzido na segunda safra do ano, ou safrinha de inverno. Kátia Abreu comentou ainda que, no caso da cana-de-açúcar, os usineiro estão inadimplentes e resistem em fechar novos contratos para a compra da safra futura.

Diante desse quadro, ela defendeu a ampliação do orçamento para as políticas de apoio à comercialização da safra. A senadora informou que um comitê do Congresso Nacional, presidido pelo deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), recusou uma emenda aprovada na semana passada na Comissão de Agricultura, a qual previa alocação adicional de R$ 2,5 bilhões para as políticas de apoio à comercialização.

O orçamento original enviado pelo governo ao Congresso previa R$ 1,5 bilhão para comercialização da safra. Se for levada adiante, a emenda aprovada na Comissão de Agricultura representaria crédito de R$ 4 bilhões para essa rubrica. "Se estivéssemos numa época de bonança, não haveria problema para absorver o excedente de produção mas, em época de crise, precisamos de meios para garantir a comercialização", explicou.

A senadora criticou também a elevada carga tributária incidente sobre o setor de alimentos. Disse que, em média, o nível de impostos é de 16,4% no Brasil. Nos Estados Unidos, a carga é de apenas 5%, enquanto na Europa é 7%. De acordo com números da CNA, o governo arrecada cerca de R$ 11,2 bilhões com impostos cobrados no setor de alimentos.

Longo Prazo

Kátia Abreu defendeu uma política de longo prazo para o setor agrícola, que garanta a renda para a atividade. Ela afirmou que nos EUA, Japão e países da União Européia existem mecanismos de renda. No caso dos EUA, é repassado ao consumidor e na UE e Japão é repassado para o contribuinte por meio de impostos.

A senadora também criticou decisão dos bancos das montadoras de confiscar máquinas agrícolas, para garantir pagamento de financiamento atrasado. Ela considerou que o produtor não paga a dívida porque não tem condições. "Estamos no limite máximo", afirmou. Kátia Abreu citou exemplo de produtor de Goiás, que comprou uma colheitadeira em 2006, pela qual financiou R$ 750 mil. Hoje a dívida desse produtor é de R$ 1,3 milhão. Uma máquina usada vale R$ 300 mil e uma nova R$ 450 mil. A taxa de juros desse empréstimo é de 14,65% ao ano. De acordo com a senadora, a cada nova rodada de renegociação, a dívida cresce 25%.

Ela também defendeu uma ampla política de seguro rural, que proteja a renda do produtor em caso de quebra de safra, provocada por risco climático. E disse que o seguro rural demandaria US$ 2 bilhões. "O governo não destina nem R$ 50 milhões para o seguro rural; um valor ridículo", lamentou. Kátia Abreu observou que o governo deve liberar recursos para o setor agrícola em meio à decisão das tradings de reduzir a oferta de crédito. "O banco nunca foi parceiro. Quem precisa apoiar o agricultor num momento de crise é o Tesouro Nacional", concluiu.

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