As declarações na véspera do chanceler brasileiro, Celso Amorim, comparando a atitude dos países ricos na Organização Mundial de Comércio (OMC) com a do chefe da propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels, causaram mal-estar diplomático em Genebra neste domingo.

Às vésperas do começo de uma semana crucial de negociações na OMC, destinada a alcançar um acordo histórico Norte-Sul sobre a liberalização do comércio, o porta-voz da delegação norte-americana, Sean Spicer, considerou "inoportunos" os comentários do chanceler brasileiro.

Durante uma entrevista coletiva à imprensa concedida sábado na sede da OMC em Genebra, Celso Amorim criticou energicamente a atitude dos países ricos nas negociações, acusando-os de considerar que a questão agrícola já estava praticamente aceita pelos 152 países-membros.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro denunciou "o mito" de que os países ricos não tinham que fazer mais concessões na agricultura e de que o acordo final dependia apenas da boa vontade dos países do sul na questão dos produtos industriais.

"Resta muito a fazer na agricultura", destacou Amorim, que citou Goebbels ("uma mentira repetida muitas vezes se torna uma verdade").

Amorim insinuou que os países ricos usam a tática nazista de manipulação de informação para descrever as concessões agrícolas que se dispõem a fazer e criticam os pobres por se negarem a abrir seus mercados.

Segundo o porta-voz norte-americano, "no momento em que se tenta chegar a um resultado favorável para as negociações, esse tipo de afirmação é muito inoportuna".

Ao se referir à "história pessoal" da negociadora norte-americana Susan Schwab, filha de sobreviventes do Holocausto, o porta-voz Sean Spicer considerou que um ministro das Relações Exteriores deveria "considerar alguns sentimentos".

Segundo sua assessoria de imprensa, a intenção de Amorim "era mostrar que a propaganda pode se sobrepor aos fatos históricos" e não fazer uma comparação entre pessoas.

De acordo com o porta-voz de Amorim, Ricardo Neiva, o Ministro lamenta que Schwab ou qualquer outra pessoa tenham se ofendido com seus comentários.

O Brasil contesta, assim, os argumentos dos Estados Unidos e da União Européia que afirmam ter feito ofertas generosas no comércio de produtos agrícolas, enquanto os países em desenvolvimento - em seu entender - fizeram muito pouco para abrir seus mercados aos produtos manufaturados.

Segundo nota do Itamaraty, o Ministro Amorim foi suficientemente cuidadoso para desqualificar o autor da frase. Sua única intenção era destacar que, algumas vezes, falsas versões repetidas com freqüência podem sobrepor-se aos fatos, e a propaganda pode suplantar a verdade.

Amorim e Schwab participaram neste domingo de um almoço organizado pelo diretor geral da OMC, Pascal Lamy, e na segunda-feira deverão realizar uma reunião a portas fechadas.

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