A China abandonou a política monetária restritiva que havia adotado nos últimos meses para combater a inflação e pode aumentar os gastos públicos para evitar que o crescimento do país caia abaixo de 9% em razão da crise financeira mundial. A China tem uma série de instrumentos para contra-atacar as ameaças a seu ritmo de crescimento, afirma Roberto Dumas Damas, representante do Itaú BBA em Xangai.

O arsenal começou a ser usado na segunda-feira, com o corte de 0,27 ponto porcentual na taxa de juros, para 7,2% ao ano.

O banco central também reduziu a quantidade de dinheiro que as instituições têm de deixar imobilizados no banco central, o chamado depósito compulsório, o que eleva o volume de recursos disponível para empréstimos. O índice caiu de 17,5% para 16,5%, mas a medida só beneficia pequenas e médias instituições financeiras.

Com a queda da inflação para 4,9% em agosto, Pequim ganhou fôlego para adotar políticas monetária e fiscal expansionistas. O governo tem folga de caixa em razão do aumento da arrecadação nos últimos anos e do baixo nível de endividamento, o que permite a expansão do investimento público, caso ele seja necessário.

"Pequim mudou seu rumo: adeus aperto, alô estímulo", escreveu Stephen Green, economista-chefe do Standard Chartered na China, em relatório para seus clientes. Analistas acreditam que o país poderá adotar novos cortes de juros, depois do anunciado na segunda-feira, o primeiro em seis anos.

A China deverá fechar este ano com um crescimento inferior aos 11,4% do ano passado, mas ainda na casa dos dois dígitos ou bastante próximo disso. O ritmo poderá desacelerar em 2009, mas deverá se manter acima dos 9%, avaliam os analistas.

O Asian Development Bank (ADB) previu ontem que o PIB chinês terá expansão de 10% em 2008. A instituição reviu sua estimativa para 2009 de 9,8% para 9,5%, em razão da provável redução no superávit comercial e corte nos investimentos em conseqüência da desaceleração da economia mundial.

Na avaliação da instituição, a Ásia sofrerá os efeitos da crise, mas ainda crescerá 7,5% em 2008, abaixo dos 7,6% previstos em abril - o índice não inclui o Japão. No próximo ano, a região terá expansão de 7,2%, de acordo com o ADB. "A crise financeira se espalhou e teve severos efeitos mesmo naqueles países com exposição limitada ao problema do mercado de subprime americano. Economias em desenvolvimento da Ásia ficaram entre crescentes pressões inflacionárias e perspectivas de crescimento fragilizadas", sustenta o relatório.

Ainda assim, o economista-chefe do ADB, Ifzal Ali, ressaltou que o índice de crescimento de 9,5% da China é mais sustentável a longo prazo e reduz as pressões sobre o meio ambiente, inflação e consumo de energia. Damas, do Itaú BBA, acredita que a China está relativamente isolada do contágio financeiro da crise por ter uma conta de capitais fechada.

Além disso, a presença de estrangeiros nas bolsas locais é limitada a US$ 30 bilhões, em um mercado de US$ 2,15 trilhões. Isso significa que não haverá fuga de capitais de investidores que precisem liquidar posições para cobrir prejuízos em outros lugares.

O isolamento chinês não é uma garantia contra quedas na bolsa, que já perdeu 60% de seu valor desde o início do ano. Mas o impacto do mercado acionário sobre a economia real na China é bem menor que nos EUA ou mesmo no Brasil.

A menos que a crise global seja prolongada, o efeito sobre o ritmo de crescimento do país não deverá ser grande, avalia Damas. As exportações respondem por 22% da expansão do PIB, cujo crescimento é movido pelos investimentos, que continuam a aumentar de maneira expressiva.

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