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Em SP, colunista chefe do Financial Times diz que "choque trabalhista" encarece terras no Brasil e no mundo

Para Martin Wolf, colunista do jornal britânico Financial Times, a China deve sustentar um ritmo acelerado de crescimento  por um longo prazo. Segundo ele, o gigante asiático tende a manter o ritmo atual de expansão econômica - que beira os 10% ao ano - por mais dez ou 15 anos. “O mais importante é como a China vai administrar a desaceleração dos investimentos e substituí-los por consumo. Em uma economia onde o consumo é menos de 40% do PIB, essa transição será bem difícil e não está claro como isso vai se dar”, disse.

Wolf, que é um dos colunistas mais influentes do cenário econômico mundial, acredita que o mundo passa por um processo histórico de mudança na economia. Ele diz que as discussões envolvendo o papel do Estado na economia – reforçadas após o estouro da crise mundial, em setembro de 2008 – marcam essa fase de transição na História.

“Quando pensamos no papel do governo e do Estado, é possível dizer que estamos em meio a um momento histórico de mudança tecnológica e econômica”, disse Wolf, durante apresentação no seminário “O Papel do Estado na crise financeira”, realizado na noite desta segunda-feira, na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo.

"O mundo está em um processo de mudança incrível e a nossa capacidade de percepção disso é muito limitada", afirmou.

Dizendo-se “ignorante” sobre o Brasil, Martin Wolf afirmou que o País tem um modelo híbrido de Estado. “Vemos aqui um estado de bem-estar social, evidenciado pelos altos níveis de transferência de renda, mas ao mesmo tempo temos aqui características desenvolvimentistas”, disse. “A discussão é até que ponto esse modelo híbrido é sustentável”, completou.

Segundo Martin Wolf, o Brasil – a exemplo do mundo – passa por um processo de “choque trabalhista”. “Praticamente quadruplicamos a oferta trabalhista para o mercado global e a consequência disso é que onera o preço da terra. Posso ver que o Brasil é muito afetado por isso.”

Globalização

Na avaliação de Wolf, o processo de globalização “permanece como o maior acontecimento da nossa era”. Ele diz que o surgimento da Ásia é o principal elemento desse processo. “Há 30 anos, a Índia tinha um PIB per capita correspondente a 3% dos Estados Unidos. Hoje, está em 20%.”

O colunista do Financial Times diz que, para se posicionar bem no mundo globalizado, um país precisa ter uma máquina de Estado capaz de fornecer bens públicos essenciais, como infraestrutura, educação e segurança. Ao mesmo tempo, diz ele, há um paradoxo, porque esse Estado “deve ser limitado no seu campo de atuação para que as pessoas possam se sentir à vontade no campo dos negócios.”

Crise

Wolf disse que a crise evidenciou o excesso de confiança que existia no mercado e comprovou a importância da atuação do Estado. “Tivemos um colapso enorme, um resgate caríssimo, que funcionou. Mas o jogo de política mudou por completo.”

Para ele, a crise trouxe a necessidade de uma nova regulamentação do sistema financeiro e deixou a economia mundial com déficits fiscais “inacreditáveis”. “Todo o sucesso na redução da dívida pública na década de 70 foi revertido e, ao fim desta crise, teremos a dívida do setor público comparada ao que tínhamos na década de 50.”

Segundo Wolf, o mundo passa por uma mudança na "balança do poder", com o G20 substituindo o G7 como fórum de discussões. Ele diz que há "enormes desafios pela frente", como as taxas de câmbio e a própria reestruturação do sistema financeiro global.

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