A provável recessão nos Estados Unidos e na Europa em decorrência do terremoto financeiro mundial deverá acelerar o processo de reestruturação da economia chinesa, com redução do peso dos investimentos e das exportações no PIB, estímulo ao consumo interno e fechamento de fábricas que consomem recursos naturais e energia em excesso. A transição já vem sendo feita de maneira lenta desde a aprovação do plano qüinqüenal para o período 2006-2010, que busca um modelo de crescimento sustentável a longo prazo.

Na avaliação das autoridades de Pequim, a dependência dos investimentos como motor do crescimento pode levar o país a um beco sem saída, com expansão descontrolada da capacidade produtiva e o risco de uma enorme ociosidade em momentos de retração da demanda, como ocorrerá agora.

Além de buscar a expansão do consumo interno, a China também se distancia da indústria de baixo valor agregado e mão-de-obra barata que caracterizou seu crescimento depois da adoção de reformas econômicas em 1978.

"O modelo está claramente mudando. A China não tem mais interesse em investimentos estrangeiros para a produção de produtos baratos para exportação", diz o cônsul brasileiro em Xangai, embaixador Marcos Caramuru.

A mudança de rumo ficou clara em 2007, quando o país acabou com os incentivos fiscais para investimentos em manufatura e passou a privilegiar projetos de alta tecnologia ou que utilizem energia renovável.

Desde então, as autoridades chinesas estão muito mais seletivas na aprovação de projetos estrangeiros. Paul Liu, presidente da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico, afirma que os chineses ainda querem o dinheiro estrangeiro, desde que ele seja destinado a setores de alta tecnologia ou de baixo impacto ambiental.

A Província de Guangdong, que concentra as indústrias de baixo valor agregado, viu milhares de empresas dos setores de brinquedos, têxteis e calçados fecharem suas portas ou se mudarem para outros países.

Na semana passada, duas grandes fábricas de brinquedos de Dongguan fecharam e demitiram 6.500 funcionários, em razão da queda na demanda dos EUA. Estatísticas indicam que no primeiro semestre 3.631 exportadores de brinquedos da região fecharam suas portas, o equivalente a 52,7% do total.

Roberto Dumas Damas, representante do banco Itaú BBA em Xangai, diz que a política oficial para investimento estrangeiro prevê quatro categorias, que definem o grau de incentivo a ser concedido: proibido, restrito, incentivado e permitido.

Os investimentos em manufatura eram "incentivados" até o ano passado, e recebiam isenções fiscais e benefícios. Desde então, passaram a ser "permitidos" - podem entrar, mas não há política de atração. Caramuru ressalta que o governo está forçando a entrada das empresas na formalidade e aumentando o controle de qualidade, um dos setores em que o país mais enfrenta problemas.

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