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Chávez perde em áreas ricas e populosas

CARACAS - Com os bons resultados da oposição nas eleições regionais de domingo e o impacto da crise financeira global, que derrubou os preços do petróleo, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, terá muitas dificuldades para aprovar uma emenda constitucional que permita sua reeleição sem limites e para aprofundar a revolução bolivariana e o socialismo do Século XXI, que prevêem um Estado ainda mais centralizador. Apesar de triunfar em 17 dos 22 governos estaduais com margens expressivas de votos nas áreas rurais, Chávez foi derrotado nos Estados mais ricos e populosos e nas grandes cidades, o que demonstra que perdeu de vez o apoio da classe média.

Valor Online |

As forças contrárias ao chavismo vão governar regiões que reúnem 45% da população e quase 100% da produção. O presidente também sofreu uma dolorida derrota em seu antigo bastião: o complexo de favelas do Petare.

Se a oposição superar suas divisões e debilidades, aumentam as expectativas que consiga conquistar nas eleições de 2010 uma parcela significativa da Assembléia Nacional - onde os chavistas são maioria, pois a oposição boicotou a última eleição. O cenário para as eleições presidenciais de 2012 também muda, com o surgimento de novas lideranças na oposição.

Embora os dois lados comemorassem a vitória ontem, as declarações dos políticos eram conciliadoras, contrariando as ameaças de enfrentamento que prevaleceram na campanha. " Quero parabenizar os ganhadores dos partidos de oposição. Reconheço sua vitória e faço um chamado ao mais alto compromisso democrático " , disse Chávez, pouco depois da divulgação dos resultados. " Mando uma mensagem ao presidente. Você e eu temos muitas diferenças, mas é hora de trabalhar juntos e resgatar Caracas " , disse Antonio Ledezma, vencedor da Prefeitura de Caracas.

As eleições regionais da Venezuela tiveram participação recorde: 65,45% dos eleitores cadastrados votaram, provocando filas que começaram às três horas da madrugada e só terminaram às 22 horas (0h30 no Brasil), seis horas após o prazo previsto para o encerramento da votação. No último pleito regional em 2004, apenas 45% dos eleitores votaram, uma média normal para o país, onde o voto não é obrigatório.

Segundo o Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela, a oposição conquistou Miranda (densamente povoado), Táchira (fronteira com a Colômbia) e Carabobo (pólo industrial), além de manter Zulia (maior produtor de petróleo) e Nueva Esparta. Os cinco Estados estão no corredor eleitoral norte da Venezuela, que agrupa população e riqueza. " É muito mais do que a oposição poderia sonhar a alguns meses " , disse Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis. Algumas pesquisas chegaram a indicar, no entanto, que a oposição ganharia em oito Estados.

Outra vitória importante e inesperada dos antichavistas foi a prefeitura da região metropolitana de Caracas, uma espécie de governo do Distrito Federal. Diferente do que ocorre no Brasil, Caracas é dividida em cinco municípios, cada um com seu prefeito. A situação venceu no município Libertador, mas perdeu em Baruta, Chacao, El Hatillo e Sucre. Nesse último, o oposicionista Carlos Ocariz, um jovem de classe média, ganhou a simpatia dos moradores pobres do Petare. A oposição também triunfou em cidades importantes como Maracaibo, capital de Zulia, e Valência, capital de Carabobo.

Ao comemorar os resultados na noite de domingo com os militantes do Partido Socialista Unidos pela Venezuela (PSUV), Chávez afirmou que " a eleição ratifica o caminho para a construção do socialismo boliviariano " e que " chegou a hora de aprofundá-lo e estendê-lo " . Em dezembro de 2007, o país rejeitou por estreita margem um referendo que previa mudanças na constituição, incluindo alterações no conceito de propriedade privada e a possibilidade reeleição ilimitada. Com o respaldo das urnas nas eleições regionais, o mandatário venezuelano planejava tentar novamente aprovar a reforma no primeiro trimestre de 2009, dessa vez por meio de uma emenda.

Para analistas políticos ouvidos pelo Valor, a avaliação de Chávez está equivocada. León, do Datanálisis, acredita que as eleições e a crise global representam um " freio " para o projeto do presidente. Ana Maria San Juan, professora da Universidade Central da Venezuela, afirmou que os resultados frustraram as estimativas do próprio governo sobre o suporte popular necessário para aprofundar a revolução, embora ainda esteja em 60% do total do eleitorado.

A economia da Venezuela, que já está em desaceleração, também não deve contribuir para os planos políticos de Chávez. Com o preço do petróleo venezuelano batendo US$ 40 por barril na semana passada, o governo será obrigado a reduzir o gasto público, que funcionou como motor do crescimento nos últimos anos. Além disso, menos receita na exportação significa menor capacidade para importar, o que pode impulsionar a inflação ainda mais. A economia venezuelana é pouco diversificada e altamente dependente de compras externas. " Chávez está acostumado a gerir o país com bastante dinheiro. Agora terá que se acostumar a tempos de escassez " , disse Franklin Rojas Penso, do Centro de Investigações Econômicas (Cieca).

(Raquel Landim | Valor Econômico)

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