SÃO PAULO - O pacote de ajuda aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos é um passo essencial para evitar o colapso completo do setor bancário norte-americano.

Mas, mesmo assim, o dinheiro será insuficiente para impedir que a economia dos EUA --e, portanto, a mundial-- sofra uma das maiores crises desde os anos 1920. Pior: os reflexos sobre a economia brasileira serão muito pesados.

Isso ocorre porque a onda de prosperidade que começou no fim dos anos 1980 e durou até agora foi alimentada por um combustível de alta octanagem, o crédito. A abundância de dinheiro para consumir e de capital para investir levou a economia dos EUA e de outros países emergentes como China, Índia, México, Rússia e Brasil aos melhores desempenhos da história.

Essa situação não existe mais. O fornecimento do combustível sofreu uma redução permanente, pois os instrumentos que vinham sustentando a criação de dinheiro pela antecipação de recebíveis futuros deverão ser muito menos usados.

Os empréstimos subprime, que foram o estopim da crise, são um bom exemplo. Analisemos seu funcionamento.

Uma empresa de financiamento imobiliário norte-americana quer ampliar seus negócios e empresta dinheiro para clientes que oferecem mais risco de inadimplência. Para adiantar o recebimento e poder fazer mais negócios, a empresa transforma esses empréstimos em títulos de renda fixa, que são vendidos para hedge funds. Os títulos também podem ser adquiridos pelos bancos, para serem usados como lastro em operações de swap.

Todo esse universo bem-azeitado recebeu uma generosa porção de areia que vai travar suas engrenagens em definitivo. O pacote de ajuda não vai entregar facilmente 700 bilhões de dólares aos bancos. Essa ajuda terá pesadas contrapartidas, como regulamentação mais severa e controles mais rígidos. Nada de comprar papéis de tomadores de alto risco, por exemplo.

O impacto da mudança será profundo na economia norte-americana e devastador sobre a economia brasileira. A impressão de que o Brasil parece estar a salvo do pior é enganosa.

A turbulência do mercado financeiro não é o maior problema --as ações oscilam e dão sustos nos investidores desde as bolhas de tulipas na Holanda do século 17. O que vai complicar a vida dos empresários brasileiros é o súbito encarecimento do crédito e do capital.

Não tenhamos ilusões. O Brasil ainda é um país pesadamente dependente do capital internacional. Entre 2004 e 2007, o país recebeu entre 32 e 36 bilhões de dólares ao ano, algo entre 3 e 4 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

O dado mais recente, referente a agosto, indica que esse número caiu para 10,7 bilhões de dólares em 12 meses.

Com menos dinheiro para aplicar, os investidores norte-americanos resgatam suas aplicações dos países emergentes e correm para tapar os buracos em casa. Sobra menos dinheiro.

Não por acaso, o saldo em transações correntes mudou de sinal. Esse indicador engloba o resultado das exportações e importações e o dos investimentos.

Até junho do ano passado, quando os primeiros problemas do subprime começaram a aparecer, o saldo das transações correntes estava positivo em mais de 1 por cento do PIB. Os números empataram no fim de 2007 e nunca ficaram positivos em 2008. Desde o início do ano, o saldo indica déficit de quase 21 bilhões de dólares, quase 1,5 por cento do PIB.

Em circunstâncias normais, isso seria resolvido com o ajuste no câmbio que já ocorreu. O dólar apreciou-se em torno de 28 por cento em relação ao real durante o segundo semestre. Algo mais do que suficiente para turbinar as exportações e estimular os investidores a buscar oportunidades por aqui.

Só que as circunstâncias não são normais. Ao contrário, o fato de o dólar subir barateia muitas das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, mas os investidores internacionais continuam resgatando suas aplicações.

As exportações brasileiras são muito baseadas em commodities, cujos preços estão bem abaixo dos picos recentes. Assim, a velha solução deverá mostrar-se ineficaz.

Há mais dois problemas, ambos vindos de Brasília. Um deles é que o governo não avança no sentido de melhorar o perfil de seus gastos e tornar a economia brasileira mais amigável para os empreendedores, o que torna improvável amortecer a crise externa fortalecendo o mercado interno.

O outro problema é a tolerância reduzida de Brasília com políticas ortodoxas de elevação do juro e redução do nível de atividade para conter a inflação. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está enfrentando agora seu primeiro desafio internacional sério e o cenário que se avizinha para a economia é tenebroso.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters

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