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FLORIANÓPOLIS - O mal-estar diplomático causado pela concessão de refúgio político ao italiano Cesare Battisti chegou ao campo das relações comerciais Brasil-Itália. O governo do premiê Silvio Berlusconi suspendeu a visita de um grupo de dirigentes da área de saúde pública e sanidade animal a Santa Catarina em retaliação à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de negar a extradição do militante da extrema-esquerda italiana.

A assessoria do governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) confirmou ontem o cancelamento da visita de forma oficial, mas informou que o motivo não foi esclarecido pelos italianos. Mas a assessoria do vice-governador Leonel Pavan (PSDB) escalado para recepcionar os italianos por conta de uma viagem do governador aos Emirados Árabes, informou que a razão principal do cancelamento da visita foi o atrito diplomático gerado pelo caso Battisti. Liderados pela vice-ministra italiana da Saúde, Francesca Martini, o grupo teria reuniões no Estado, a partir deste domingo, para tratar de detalhes de uma possível importação de novilhos vivos e carne suína.

O deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, confirmou a interferência política na relação comercial com os italianos. " É uma pena, mas o caso do italiano destruiu todo um trabalho de aproximação que vínhamos fazendo com o governo da Itália " . Convidado para o encontro, o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Inácio Kroetz, ponderou que a questão política pode ter interferido na suspensão da visita.

Pivô da disputa diplomática ítalo-brasileira, Cesare Battisti aguarda decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na prisão em Brasília. O advogado de Battisti, Luiz Eduardo Greenhalgh, não ficou surpreso com o cancelamento da visita. Segundo ele, o ato pode ser considerado mais um de uma série de manifestações da Itália para pressionar o Brasil a extraditar Battisti. " Essa pressão é a mais completa e cabal prova de que se trata de perseguição política " .

No Itamaraty, a visita da comitiva da vice-ministra italiana não havia chegado a ser confirmada oficialmente pelo governo italiano, o que levou os diplomatas a negar que tenha havido um cancelamento. Em caso de confirmação seria, na avaliação do ministério, um caso isolado, já que, em janeiro, foram mantidos regularmente os encontros programados. Na quarta-feira, enquanto ainda estava em Roma o embaixador italiano, Michelle Valensise, chamado ao país por causa da crise, um representante da agência de cooperação italiana visitou o Brasil e, com dois funcionários da embaixada em Brasília, discutiu um projeto de ação conjunta para infra-estrutura urbana na capital moçambicana, Maputo. Antes dessa visita, outra missão técnica reuniu-se com funcionários do governo brasileiro para tratar de projetos comuns na Amazônia.

O diretor-executivo do Sindicarnes-SC, Ricardo Gouvêa, disse que a missão italiana foi mesmo suspensa em razão do caso Battisti. Membro da comissão organizadora da visita, Gouvêa disse que ainda não há uma nova data para que ela ocorra. " Essas pessoas viriam para acertarmos as tratativas de convênio técnico com a Itália, mas cancelaram a visita porque ficaria estranho assinarmos um acordo em momento de fragilidade diplomática entre os dois países " .

A comitiva italiana teria, ainda, a participação do chefe do Departamento de Saúde Pública da Itália, Romano Marabelli, e de dois diretores da área de sanidade animal, além de Vicenzo Caporalle, membro do Instituto Zooprofilático G. Caporalle e diretor técnico da Organização Internacional de Saúde Animal (OIE).

" [O cancelamento] não quer dizer que as conversações que tivemos com os italianos voltam à estaca zero. Mas podem demorar mais " , disse Gouvêa. " Acredito que a missão esteja suspensa temporariamente, e não cancelada. Mas tudo vai depender da evolução do caso " .

A comitiva italiana participaria de um jantar no domingo com representantes da agroindústria e com membros do governo catarinense, na qual haveria uma explanação dos técnicos da agricultura do Estado sobre as condições sanitárias.

O Estado de Santa Catarina vem negociando há cerca de dois anos com os italianos para exportação de novilhos em pé para posterior engorda em solo italiano. Em uma das diversas reuniões, esteve presente o embaixador da Itália, Michele Valensise, que voltou ao seu país depois do caso. O Estado também tenta entrar com suínos na União Europeia, depois que em 2007 conquistou status pela OIE de área livre de febre aftosa sem vacinação, uma chancela para abertura de mercados de alto rigor sanitário.

Segundo Gouvêa, além de Santa Catarina, os italianos visitariam o Mato Grosso do Sul, onde estariam interessados em carne bovina, e também se reuniriam em Brasília com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Os italianos ficaram no país até quinta-feira.

A União Europeia não importa carnes suínas do Brasil e a carne bovina importada é somente maturada e desossada.

Em recente visita a Santa Catarina, no fim de 2008, empresários italianos reafirmaram o interesse na compra de terneiros vivos do Estado, em substituição às compras de parte das carnes que adquirem da França, que seriam mais caras. Os empresários não comentaram sobre suínos e visitaram a região de Lages, local de onde a produção de terneiros poderia sair com destino a Itália. A importação prevista pelos italianos seria de 50 mil animais por ano.

(Vanessa Jurgenfeld, Mauro Zanatta, Sergio Leo e Raymundo Costa | Valor Econômico)