Produtividade e competência ofuscam homossexualidade, diz consultor

A Parada do Orgulho Gay que aconteceu ontem em São Paulo reuniu mais de três milhões de pessoas, segundo seus organizadores. Apesar de os homossexuais presentes estarem bem à vontade, e muitos até transvestidos, no cotidiano de suas vidas, especialmente, no ambiente de trabalho, a homossexualidade de alguns não é sequer admitida.

O bancário Cássio, que não quis dar o sobrenome, por exemplo, conta que não assume que é gay no trabalho. "As pessoas desconfiam, mas ninguém nunca me perguntou. Eu fico na minha, sou discreto e faço meu trabalho como todo mundo", comenta.

Autêntico - Já o publicitário Afonso Pereira, de 31 anos, afirma não ter problemas em admitir que é homossexual. "Eu saio com o pessoal do trabalho e levo meu namorado junto. Claro que eu não fico aos beijos com ele, por uma questão de respeito. Ninguém acha que eu sou menos competente por causa disso, ao contrário, muita gente gosta de mim, justamente, porque eu sou verdadeiro. Acho que isso é o mais importante", diz.

Para Carlos Bitinas, sócio e consultor da DRH Talent Search, essa autenticidade é, de fato, o elemento mais importante para que a pessoa consiga ser feliz no trabalho. Um outro aspecto que deve ser levado em conta, no entanto, é analisar se a empresa _ou a própria carreira escolhida_ tem uma estrutura mais rígida ou mais flexível, se é mais tradicional ou é mais aberta e liberal.

"A pessoa deve ter sensibilidade para adequar o seu grau de exposição. Dependendo da cultura da companhia, esse grau de elasticidade é maior ou menor", explica.

Produtividade - O consultor comenta que apesar de o preconceito contra o homossexual existir, ele afirma que as empresas estão se desprendendo desses preconceitos, uma vez que a mentalidade corporativa hoje é muito voltada para o resultado. "Se a pessoa de adequa ao ambiente e produz aquilo que se espera dela, a questão da sexualidade não será importante", afirma Bitinas.

Algumas empresas têm até políticas especiais para lidar com a diversidade dos funcionários, em especial os homossexuais. A IBM, por exemplo, tem uma rede interna chamada Eagle (aliança dos empregados para o fortalecimento dos gays, lésbicas, transgêneros e bissexuais) na qual todos os colaboradores homossexuais da empresa no mundo têm a possibilidade de se comunicarem.

Pesquisas - Segundo uma pesquisa publicada pela organização americana Campanha pelos Direitos Humanos (Human Rights Campaign (HRC), em inglês), o número de empresas que têm índices de políticas perfeitas para lésbicas, gays, bissexuais e transexuais no ambiente de trabalho aumentou 20% em 2009 em relação ao ano anterior. Das 590 empresas pesquisadas, 305 atingiram todas as metas de políticas de igualdade, comparada a 260 de 2008.

Apesar de nos Estados Unidos as práticas empresariais estejam bem avançadas, no Brasil, um em cada quatro brasileiros é homofóbico, segundo o levantamento nacional "Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil. Intolerância e respeito às diferenças sexuais nos espaços público e privado" realizado pela Fundação Perseu Abramo, em parceria com Rosa Luxemburg Stiftung, em 2008.

"Acho que tudo é uma questão de postura. Se você é competente, tem de mostrar essa capacidade. Em processos seletivos, não adianta ficar quebrando a munheca, e dando gritinhos. Essa imagem estereotipada dos gays é que mata. Nós temos que mostrar que também somos fortes, inteligentes e tão ou mais capazes do que aqueles que nos olham de rabicho de olho e dão uma risadinha", comenta o analista de sistemas Paulo Araújo, de 28 anos.

Assim, revelar ou não a sexualidade dependerá do quanto isso é importante para que a pessoa seja autêntica no trabalho sem que isso atrapalhe o seu relacionamento com os colegas, afirma o consultor.

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