Artigo de Ana Rita Bittencourt Schlatter, administradora de empresas e consultora da Höft na área de transição de gerações

São Paulo ¿ A participação de maridos e esposas nos assuntos patrimoniais e de negócios das famílias empresárias é tema controverso. Muitas famílias afirmam que é melhor não envolvê-los, acreditando que, quanto menos souberem, menores serão os problemas futuros.

Mas, afinal, incluir os cônjuges nos temas societários ajuda ou atrapalha? A experiência nos mostra que a questão de fato é complexa, entretanto, simplificá-la, excluindo os parceiros do processo de informação, seguramente não é o caminho que trará os melhores resultados.

Do ponto de vista de um membro de família empresária, o desafio se inicia pela escolha do parceiro. Uma dúvida sempre paira no ar: o interesse é financeiro ou afetivo? Mas depois de superadas as inseguranças e confirmadas as boas intenções da relação, outras saias-justas podem entrar em cena.

Como introduzir o assunto sobre regime de casamento sem ofender a outra parte? As conversas sobre esses temas podem parecer cruéis, mas são de suma importância para regular o indesejado: separação ou morte. Cabe ao herdeiro ter tranquilidade para expor, com abertura, suas preocupações ao pretendente.

Mesmo depois da relação formalizada, o dia a dia também apresenta desafios. Um deles é o diálogo sobre as finanças cotidianas da nova família. Uma grande dificuldade é conversar sobre a adequação do padrão de vida do casal aos seus rendimentos. Vale lembrar que a construção de projetos patrimoniais a dois é um importante pilar da relação conjugal.

Lembro-me de um rapaz muito talentoso e esforçado que, após se casar com a herdeira de um grande grupo empresarial, começou a economizar para comprar uma casa à altura do padrão de vida da família da esposa. Mas sentia que estava muito sozinho nesse projeto. As referências de gastos e economias da esposa eram extremamente distantes da realidade de um casal recém-casado em vias de adquirir seu primeiro imóvel.

Vemos, portanto, que, do ponto de vista do cônjuge, a situação não é menos delicada. Ao iniciar um relacionamento com sócio ou herdeiro de empresa familiar, ele muitas vezes passa a ser exposto a um novo mundo e a conviver com um padrão de vida acima de sua capacidade financeira.

Ao mesmo tempo, pode sentir uma obrigação íntima de, todo momento, provar que sua união não foi por interesse. Mais uma vez, a transparência, maturidade e disposição do casal para conversas sensíveis não são apenas desejáveis, mas essenciais. 

A educação dos filhos é outro importante pilar da união de um casal. Nesse aspecto, cada cônjuge tem, no mínimo, metade da responsabilidade. Estar ciente de informações patrimoniais, implicações e cenário que esperam seus filhos como herdeiros da empresa da família é fundamental no processo de preparo da nova geração.

É importante lembrar que, pelo novo Código Civil, o cônjuge passou a ser herdeiro, inclusive no regime de separação total de bens. Tendo isso em vista, seu preparo e envolvimento se tornam ainda mais necessários.

Tais reflexões nos conduzem não mais à questão de se incluir os cônjuges nos temas societários ajuda ou atrapalha, mas qual é o momento ideal de envolvê-los e qual a melhor forma de fazê-lo. Evidentemente, cada família e indivíduo têm suas particularidades, que devem ser consideradas.

Também fica claro que o papel dos maridos e esposas não é o mesmo dos sócios. Mas certamente existe um papel a cumprir e a continuidade da empresa familiar, sem sombra de dúvida, também passa por planejar cuidadosamente esse envolvimento.

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